14.11.13

A agonia de enviar currículos


Nunca fui fã do dito cujo e felizmente a minha área profissional permite-me que o evite, já que a ferramenta básica para comprovar experiência e capacidade profissional é o portefólio, que obviamente pode e deve ser acompanhado por uma nota curricular, mas que acaba mais por ser um complemento de cortesia do que outra coisa.



A história do currículo, especialmente a formatação acarneirada do Europass para mim resume-se à conveniência e preguiça de possíveis empregadores e pouca mais valia traz a quem pretenda apresentar competências ou tenha efectivamente skills diferenciadores. E, por mais que isto possa parecer maluqueira criativa, a verdade é que um currículo não é um papel ou aquilo que colocamos no mesmo. O currículo é o nosso percurso.



A propósito do tema, fui ontem abordado por alguém que anda a tentar mudar de emprego e estava frustrado por ter que enviar modelos de currículos que mais não são do que caixas atrás de caixas, com compartimentos e divisões de capacidades, tabelas de skills em línguas e por aí em diante. Dizia-me ele “Se uma empresa receber 100, 200 currículos com a mesma formatação, especialmente numa altura em que o desemprego faz com que a determinada posição concorram todo o tipo de pessoas, tenham ou não as competências directas, como é que é possível criar um impacto à primeira vista? Devo ser criativo e borrifar-me para o modelo standard de currículo?”.



Disse-lhe que sim, tirando em casos em que seja especificamente pedido um determinado modelo de CV. Mas também o alertei para que “criatividade” não é sinónimo de maluqueira e, quer em candidaturas espontâneas, cartas de motivação ou CVs “criativos” já vi muita coisa arrepiante derivada da falta de bom senso.



Se eu mandasse nisto, diria que cada pessoa teria uma página A4 para expor o que considerava essencial para a sua competência para o cargo em questão. Podia escrever o que quiser, podia manter os bullets todos que entendesse, expor todos os seus skills ou fazer uma banda desenhada se lhe apetecesse. Tenho a certeza absoluta que boa parte dos candidatos manteria aquilo a que se chama a estrutura básica de um CV, mesmo com essa liberdade. No entanto, aqueles que possuem alguma atitude diferenciadora não estariam amarrados a um documento que cheira a mofo e poderiam assim chamar a atenção para as suas capacidades, sem perder obviamente o foco de que aquilo é uma candidatura.



E para todos aqueles que porventura já estejam a espumar do alto do seu know how de recursos humanos, é sempre possível pedir posteriormente certificados e comprovativos, podem fazer testes de dinâmica de grupo e afins e podem até fazer as entrevistas que considerarem necessárias. E entrevistas de emprego é lenha que daria para outro post.



Mas não hoje, que só tenho menos de uma página A4 para bater no currículo e prefiro acabar a dizer que sou uma pessoa que gosta de trabalhar em equipa, que o meu maior defeito é ser teimoso e às vezes sou um bocadinho perfeccionista. Ah e já vomitei depois de acabar uma maratona.

14 comentários:

  1. Gosto dessa política. A partir de certo nível, sobretudo nas áreas da gestão, duas páginas é o máximo, e muitos MBAs, já há alguns anos, exigem mesmo só uma página.

    O que começa a acontecer também, é que as grandes empresas (fortune 500, etc.) já utilizam software para filtrar as primeiras levas dos CVs. É curioso, prático, e, talvez, um pouco triste, esta constatação que andamos cada vez mais a escrever para máquinas (o que se está a passar na Internet, p.ex., cada vez há mais 'content farms'.)

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    1. Sei de alguns processos lá fora, incluindo instituições prestigiadas, em que muitas vezes é a carta de motivação (limitada a x número de caracteres, limite página A4) que define a linha entre quem vai a uma entrevista, perante CVs que são todos muito aproximados.
      E, obviamente, uma carta de motivação é tudo menos standard.

      Esses filtros automáticos, que dependem obviamente de standardização de modelos de candidatura são obviamente um facilitador para quem contrata às carradas (ou posições gerais de baixa diferenciação).

      Mas, escapando a esse futuro/presente robotizado a partir de um determinado nível, é curioso verificar que o empregador por norma quer algo que se distinga dos demais (e, por cá, pagar o mínimo possível por isso), mas continua a gerir processos de recrutamento com base em CVs cinzentos e padronizados.

      E é tão fácil "pintar um currículo"...

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    2. Não é necessariamente de baixa diferenciação, pelo contrário. São algoritmos muito sofisticados que podem ir buscar coisas bastante específicas como "programador de Pearl integrado com cristais Chakra", etc, ou mesmo se tens algum MBA de uma escola de top 10, ou se tens MESMO 6 anos de experiência. Mas sim, são males necessários em grandes organizações (serão?).

      Mas, divago. O panorama geral é absurdo, e os problemas encontram-se tanto do lado da oferta e procura, como notas. Um dos expoentes máximos sendo o clássico mail "dispara CVs europasse em BCC", que ainda continua a existir.

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    3. Pois, pensava que era algo para filtragem em escala menor, mas obviamente que com algoritmos assim dá para chegar a qualquer lado.

      E sim, há problemas dos dois lados, muito para além do currículo, em termos de processos e candidaturas.

      Noutro patamar, já viste uma cena que é o Undercover Boss, na Sic Radical?

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    4. Sim, o Undercover Boss desperta em mim reacções ambíguas. Por um lado, gosto de ver o boss a infiltrar-se na empresa, apanhar a sua lição de humildade, conhecer o negócio e as pessoas de perto, etc. Por outro lado incomoda-me sempre a realização que a ajuda que aquelas pessoas recebem, na xaropada do 3º acto (a parte mais chata do programa), é uma improbabilidade que resulta de terem participado num reality show, um acontecimento fortuito que apenas reforça que o sistema não funciona (para os 99%).

      Gostava de espreitar a versão do UK, no entanto.

      What's your take?

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    5. No universo em que falávamos de necessidades de empresas "grandes" e de processos a nível de recursos humanos, acho que o Undercover Boss tem alguns aspectos interessantes.

      Mostrar que existe uma falta de noção da realidade da empresa por parte do top management, mas fazê-lo de uma forma participativa parece-me muito bem.
      A realização é mesmo à "reality show" americano, lamechas e sentimental, com moral da história e por aí em diante.

      A parte das reprimendas e das recompensas finais é que me chateiam um pouco, não porque as pessoas não as mereçam porque aí se esquece da realidade da empresa para se focarem nos casos das pessoas. E aí, tanto aquele gajo pode ter uma vida difícil como mais 30 na empresa, que ficam a ver aquele levar um bónus e eles nicles.

      As medidas que dali são retiradas para melhorar a empresa no geral são sempre minoritárias, embora o programa tenha a vantagem de projectar a coisa como um ponto de viragem.

      Resumindo, gosto do conceito, gosto da abordagem do "vai lá ver o que custa, em vez de debitares ordens da tua torre", mas depois é muito fácil a coisa do cheque recompensa pela tua história de vida.

      Acho que gostava de uma coisa mais crua...

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    6. Pois, estamos quase a dizer a mesma coisa. Só diria que, em relação à realização, o pior para mim não é ser lamechas ou sentimental, mas sim aquela sensação plástica de "realidade dramática", que é um processo de ficcionalização aplicado formulaicamente em quase todos os episódios (ex. o tipo que sofreu uma perda, a mulher que gostava de ter estudado mais , o outro que não tem tempo para ver os filhos) e que te vai desligando das pretensões "realistas" que o programa possa ter.

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    7. Sim, estamos alinhados :)

      Para além do valor do conteúdo televisivo em si, eu olho para o universo da empresa para além do programa e vejo malta com uma situação pior/idêntica, que fica a olhar para aquilo e a dizer "Então aquele c"#%"% tem direito a isto e mais aquilo e eu não? Bandidos".

      É que a reality continua depois do show :)

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  2. Na minha opinião, o CV é uma mera lista dos empregos / educação formal. O mais importante e onde realmente se deve ser criativo e mostrar como as nossas competências se adequam ao emprego a que nos estamos a candidatar é a carta de motivação. É ela que deve distinguir entre uns e outros.

    Quanto ao CV, acho que quanto mais estandardizado melhor. Aliás, muitas candidaturas de emprego a que concorri tinham um formulário de candidatura próprio, igual para todos os candidatos e não aceitavam CVs, precisamente para facilitar a comparação entre candidatos.

    Claro que isto deve variar consoante as áreas mas na de ciências sociais (a única que posso falar por experiência própria) parece-me que CV estandardizado + carta de motivação ultra-específica se adequam.

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    1. O problema dos CVs, incluindo o da norma, é que hoje em dia há quem facilmente chegue a três páginas, frente e verso, com caixas do mesmo preenchidas.

      Posso garantir que, mesmo em funções em que isso o exija, as pessoas têm uma resistência natural a ler demasiada informação compactada e, numa altura em que toda a gente tenta mostrar competências, formação adicional, etc, é fácil chegarmos a enchidos curriculares à discrição que, à falta de máquinas como as que o André refere, caem no vazio).

      A folha A4 pode ser uma rotura demasiado brusca, mas estimular a capacidade de síntese e aumentar o poder de criatividade (e manter as competências numa breve nota curricular à parte, por exemplo) para mim continuaria a ser uma boa solução de futuro.

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    2. Foi este sistema (CV standard + carta/email de motivacao) que me levou às mais interessantes reaccoes quando andava em busca de emprego e, em alguns casos, a entrevistas.
      Um modelo de CV comum a todos, embora pouco eficaz no rastreio, funciona para separar grupos de candidatos com base em competencias formais, diplomas e afins. Se a isso se juntar 1 carta direccionada para aquela candidatura em particular, é possível criar um perfil único com 1 parte chata mas directa e outra onde a criatividade tem espaco (e, no mundo ideal, vai de maos dadas com o bom senso).

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    3. Sim, estamos de acordo, a informação "chata" essencial tem de vir algures, mas o "extra", o "sumo" que podes ter enquanto candidato deveria vir em primeiro lugar ou ter margem para fugir a formatos tão convencionais.

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  3. Com a quantidade de cursos diferentes e de pessoas com cursos diferentes que há actualmente, ainda me faz confusão como algumas pessoas conseguem ser tão fiéis ao Europass. Tentei uma vez e não gostei. E é exactamente como dizes, sem fazer da cena um circo, um CV deve ser minimamente personalizado.
    E adorei a expressão da "formatação encarneirada". Extremamente correcta!

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    1. Pois, é por aí, sou da opinião em que a formatação só é útil quando funciona como facilitador e não como entrave ou forma de glorificar o encarneiranço :)

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