6.11.13

147 horas depois do jantar ter começado

Olharam-se nos olhos, eram os últimos, pelo meio do que havia sido uma guerra cheia de deliciosas batalhas.

Tinham sobrevivido à bebida pré-jantar, aos aperitivos, à sopa, a um primeiro prato que teria feito chorar alguém a quem tivessem tirado os sacos lacrimais, a um segundo prato que não deixou ninguém indiferente incluindo aquela estatueta com ar piroso que suspirava em cima do aparador e tinham até superado aquela montanha feita de sobremesas, fruta, café, digestivos, chá e arrotos disfarçados por baixo de guardanapos de pano.

Mas a verdade é que depois das saudades terem sido mortas, da conversa da boa ter vindo ao de cima, das piadas fáceis se terem tornado cada vez mais difíceis, do pelotão dos responsáveis pais de filhos deixados em casa de algum familiar terem batido em retirada, da conversa de encher chouriços ter assumido o controlo e de até os irresponsáveis pais de filhos, já bem carregados de álcool e tupperwares com uns docinhos para os miúdos, decidirem que estava na hora de colocar um fim à sua loucura mensal, ali continuavam os dois. Sentados, cheios de tudo, menos de vontade de ir embora.

Um dos anfitriões já dormia no sofá, o outro suspirava por dentro embora por fora mantivesse aquele sorriso neutro de quem recebe bem, mas que daria tudo por receber um bocadinho pior e já estar livre daqueles dois.

Depois de tantas horas, já não havia conversa possível, apenas frases curtas que iam sendo lançadas para o ar em modo sobrevivência, a ver se o outro se desgastava a recorrer. Mais um golinho aqui, mais um bocadinho de queijo acolá, era uma maratona em que o segredo para vencer era não arredar pé.

Eis quando, do nada, um deles se levanta e outro olha para ele, tenta descortinar uma concessão de derrota. Um anfitrião reza, o outro ressona. De pé, esticando o corpo, não é de derrota que ele quer falar, "Desculpem, preciso mesmo de ir à casa de banho".

"Sim, claro", suspiros, resignação e tudo a continuar na mesma.

Os pássaros começam a cantar e os primeiros raios de sol bailam na janela. O que foi à casa de banho volta para a mesa. Não há sinal que o desfecho se aproxime.

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