1.10.13

Um dia os Correios matam-te


A minha relação com os Correios foi sempre feita de altos e baixos, até descobrir hoje que eles têm o poder de matar pessoas, mesmo que de forma indirecta.

Em miúdo gostava de ir aos Correios, achava piada ao ritual de ir fazer coisas importantes como enviar uma carta registada, buscar uma encomenda ou até comprar selos. Conforme fui crescendo, fui achando menos piada à coisa porque percebi que os velhotes também gostavam muito de ir aos Correios, especialmente se tivermos em conta que muitos recebem a reforma através deles.

Gradualmente, tirando em casos de necessidade obrigatória, comecei a evitá-los pela mesma razão que nunca fui fã da Caixa Geral de Depósitos – demasiados idosos nas filas, por norma é equivalente a horas de espera e, nos dias que correm, tempo vale tanto ou mais que dinheiro. Outra coisa que me começou a chatear é o facto dos Correios não terem Multibanco, lá terão as suas razões, mas quando hoje em dia os seus serviços incluem vendas de bilhetes para espectáculos/livros/panos de cozinha/whatever isso quer dizer que podemos lá gastar uma quantia variável e incerta, dependendo apenas de dinheiro físico. Diria eu que dificultar o pagamento é sinónimo de afastar o cliente de possíveis compras. Mas nessa matéria acho que bem posso continuar a aviar postais.

Outro aspecto de amor-ódio na relação que tenho com os Correios são os carteiros. Uma vez mais, quando era miúdo achava a profissão bastante sedutora, o carteiro era o mensageiro poderoso que trazia alegrias e tristezas às pessoas ou, ocasionalmente, revistas porno para o vizinho de baixo em discreto envelope neutro mas, ainda assim, com evidentes rasgões que deixavam uma ou outra mama à mostra.
Ao crescer, tive a noção que ou os carteiros mudaram ou aquilo não era assim uma profissão tão sedutora. Às vezes não tocavam e os avisos para ir à estação ficavam na caixa a dizer que sim, desafiavam a lógica do espaço, tentando enfarinhar volumes e revistas nas caixas onde só cabiam em versão harmónio, entre outros. Além disso, também descobri que não era profissão para mim, devido à minha extrema curiosidade e tendência para o complexo de Deus guionista – rapidamente daria por mim a violar correspondência e a ajustar a realidade às histórias como elas realmente deviam ser.

Na verdade, os Correios de hoje debatem-se com problemas de sobrevivência. As formas de comunicação estão a mudar, o rumo não lhes é favorável e são os mesmos velhotes que já lá estavam quando eu era miúdo (acho que os Correios têm um acordo com a morte para não perderem clientela), a par das empresas com necessidades específicas de expedição que atenuam a sua queda.

No entanto, ao descobrir que o facto de alguém escrever num envelope que nos é destinado a palavra“Falecido” pode implicar a assumpção de que estamos realmente mortos, impedindo-nos de votar, sou gajo para mudar de ideia e voltar ao desejo de ser carteiro. Para quê deixar nas mãos de vizinhos ou destinatários pouco atentos tal poder, quando posso ser eu a criar o caos e a diversão, escrevendo do lado de fora dos envelopes e encomendas notas como:

“Mudou de sexo e vive agora numa colónia de nudistas”

“Emancipou-se e agora chamam-lhe a Miley Cyrus de Alfornelos”

“Adoro Satã, por isso pode passar a mandar essas contas para o Inferno”

“Falecido, mas é agora um Zombie. Entregue apenas carne fresca”

2 comentários:

  1. Num dia particularmente desinspirado, limito-me a levantar e aplaudir. Mas sentado, que estou coxo.

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  2. Muito mais eficaz que aqueles programas de protecção de testemunhas que há nos filmes. Os assassinos dão sempre com elas. Esta técnica do envelope devolvido é ideal para os despitar porque é coisa que não lembra ao Diabo, embora talvez lembrasse a um Deus guionista assim para o criativo.

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