21.10.13

Os gajos que correm também sentem os blues


Não gosto do termo “depressão”, até porque creio que boa parte da pessoa que o usa por dá cá aquela palha não sabe do que está a falar. E ainda bem que não o sabe, ao que acrescento, ainda bem que eu também não o sei, pelo menos de forma directa.

Gosto mais do termo “feeling the blues” porque traduz a combinação de melancolia transitória, de um certo desconforto que, apesar de não ser algo positivo, no meu dicionário está mais longe do poço negro que é a depressão no seu sentido verdadeiro. Para além disso, também sou defensor, eufemismos à parte, que a carga que colocamos nas palavras muitas vezes contribui para o carregar/aliviar a pressão dos sentimentos que as mesmas traduzem. Mas isso é conversa de semântica que fica para outra altura.

Hoje o tema são os blues, mais precisamente os runner blues.

Já tinha lido sobre isso, podem saber um pouco mais aqui, são conceitos que se vão aprendendo conforme se vai correndo mais, tal como a importância de reconhecer e enfrentar “The Wall”, não como afronta em relação aos Pink Floyd, mas sim como parte dos obstáculos que se enfrentam ao correr uma maratona.

Longe de mim querer comparar “baby blues” e “runner blues”, mas o facto é que à escala são uma espécie de pós-climax, em que uma nova realidade ou o reboot do sistema pode deixar uma pessoa um bocado à toa. Como sobre parentalidade não faltam aí outros lugares com saber de experiência feita, fico-me por aquilo que sei e aquilo que sinto – desde a última maratona que, no que à corrida diz respeito, corpo e mente não têm andado ao mesmo ritmo.

Tal como nas outras três que completei, quando acabei esta maratona não o fiz com nenhuma aversão à corrida ou querer distância da mesma. Enquadrei a recuperação como é normal e menos de uma semana depois já estava a correr outra vez. Contudo, talvez por esta última ter sido mentalmente mais penosa, sinto que o cansaço psicológico está a demorar mais tempo a recuperar que o físico. Ou seja, tenho vontade de correr, vou correr, o corpo aguenta, mas a cabeça farta-se muito mais rapidamente e começa a insultar o corpo e o gajo pelo meio. Mal acabo de correr, fico irritado por isto se passar assim, até porque nem sequer estou a esticar a coisa ao limite das minha capacidades, nem nada que se pareça.

E então, o que é que eu faço?

Dizem que é bom criar novos objectivos, novos planos de treino e retirar ensinamentos da última prova, antes de encerrar o capítulo. Assim será, a começar já com uma corrida no próximo domingo, coisa soft de 10kms na prova do Montepio. Sem pressões de tempos, com amigos à volta e o facto de ser uma prova em que as inscrições revertem a favor da Cruz Vermelha. Creio que nem eu, nem os meus ténis iremos continuar a sofrer de runner blues por muito mais tempo e acredito até que o mau tempo é coisa para me animar mas, para não desenquadrar totalmente a banda sonora, na próxima prova vou lembrar-me de levar música a condizer.


2 comentários:

  1. Talvez devas fazer uma pausa, experimentar ciclismo ou então focar-te mais no trail e em provas de trail e/ou ultra-maratonas:) Eu não consigo imaginar o que é correr 3 ou 4 maratonas e ter vontade de treinar para a 5ª, a não ser do caso de melhorar muito ainda, o que duvido. Em princípio quero conciliar as duas coisas, ter as provas de estrada, mas combinar com o trail running, uma ou duas ultras, mas ter uma base mais forte de trail, porque acho que nesse contexto a corrida transforma-se mais num meio para cumprir uma viagem e não tanto como um objectivo em si (melhorar paces etc.) Mas ainda falta. Se tudo correr bem, corro a minha primeira Maratona em Março, em Barcelona. Ainda estou a hesitar um pouco porque calha na meia de Lisboa, a da ponte. O que achas dessa prova, a meia de Lisboa, da ponte 25 de abril? A mim parece-me ter TANTA gente. É uma coisa que me atrofia um bocado, querer correr e ter de aturar o espírito piquenicão do continente... (daí o trail ahah)

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    1. Ciclismo só como puro lazer ou, se me tornar urbano e cosmopolita, como forma meio de transporte casa-trabalho.

      Trail é de facto uma opção para intervalar na estrada, ultras para já não vejo isso no horizonte, pelo menos como prova.
      O meu "truque" se é que isso se pode chamar assim é treinar apenas o suficiente para saber que consigo cumprir as coisas, deixando sempre margem para melhoria, mas sem devoção religiosa. Por exemplo, continuo a jogar basket 1 ou 2 vezes por semana e, corro por norma 3 vezes (quatro se não jogar basket), mas só ao fds é que cubro distâncias mais longas.

      O trail seduz-me pelo factor de orientação e da riqueza de cenário, mas também sei que o grau de dificuldade é bastante superior à estrada e, como tal, muito exigente, mesmo sem a preocupação de tempos.

      A maratona de Barcelona, pelo que sei, é boa mas tem bastante desnível, dizem-me que a de Sevilha (Fevereiro) é mais maneirinha. Também tens Madrid, que fiz este ano, ambiente fenomenal, mas precisas de ter a sorte de não calhar com calor (e eu já vi que com o calor não me dou nada bem).

      A meia da ponte, é emblemática, é capaz de ser a que já fiz mais vezes. É um maralhal, de facto, chegares até ao tabuleiro da ponte é complicado, porque os acessos são reduzidos. No entanto, a organização tem melhorado e o pessoal da meia já parte à frente da turba da mini. Isso faz com que em vez de fazeres a ponte toda em slalom, isso só aconteça para aí nos primeiros 2k, se tiveres um andamento porreiro (e não chegares em cima da hora).

      Vale a pena fazê-la uma vez e tirar as dúvidas. Ah e faz sempre calor, é impressionante.

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