16.10.13

Não ganhei o Prémio Leya 2013, mas tenho emprego



Soube-se ontem a notícia que o prémio Leya 2013 foi atribuído pela primeira vez a uma mulher, Gabriela Ruivo Trindade. Sendo eu pouco mais que um leigo na matéria, não posso divagar sobre a relação entre o mercado editorial e as mulheres, assim como se há ou não mais dificuldades para publicar no feminino. Para mim é uma boa notícia e pronto.



No entanto, sei como se podem conduzir pessoas a um determinado sentido, explorando as vertentes que mais nos interessam para gerar impacto nas notícias, mesmo que nos esqueçamos do que devia ser prioritário. Na peça da SIC sobre o assunto, a primeira legenda traduziu o espírito mais pobrezinho dessa abordagem.






É triste quando “desempregada” é o primeiro valor que nos interessa destacar, mesmo quando o contexto da crise é sempre um bom chamariz. Esqueçam a sua formação, o tema da obra e afins, o que interessa é que é uma gaja que emigrou, não tem emprego e sacou um prémio. E assim chegamos ao ponto em que os noticiários vendem cada vez mais o lado fast food da informação, é para encher e basta, possivelmente a seguir caminhamos para “Senhora X ganhou o prémio Leya 2014, é obesa e tem um filho toxicodependente”.



Além disso, já não é a primeira vez que o desemprego é explorado no rescaldo de um vencedor de um prémio LEYA e, a continuar assim, notícia será quando ganhar alguém que tenha emprego. Sim, porque isso de ser escritor não é trabalho de gente, porque as Letras normalmente só preenchem na alma o vazio que deixam na carteira.

8 comentários:

  1. disseste tudo, meu amigo. é que disseste mesmo tudo. a Leya, acima de tudo, procura aceitação por parte do mercado e "publicidade social".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu a malhar na SIC e dizem-me que as declarações do Manuel Alegre também acompanham bem com essa legenda...

      Eliminar
  2. já em 2011 foi igual... abordou-se a coisa pelo engenheiro desempregado pobrezinho, amador nas lides da escrita... fizeram-se n reportagens nessa mesma perspectiva... E a verdade é que a obra maravilhosa que o fez merecer o galardão ficou esquecida. O livro era mesmo bom!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O ângulo é o que vender melhor a notícia e sempre a puxar ao épico do desgraçadinho. Pessoalmente, não adorei o livro de 2011, mas é uma questão de gosto e não da qualidade da obra.

      No entanto, para mim o background do autor só se torna relevante quando isso está ligado à obra. E será sempre secundário face a um galardão alcançado.

      Eliminar
  3. São as histórias que interessam ao português, no geral, Mak. TVI e Correio da Manhã sempre na frente...por alguma razão, certo? E a televisão é negócio...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Percebo perfeitamente essa lógica, mesmo que não concorde com ela. Mas desta vez até tinham o ângulo da "primeira mulher a...". Mas o desemprego calha sempre bem em salada de informação com travo a orçamento de estado.

      Eliminar
  4. Grande verdade. E não me parece que a culpa seja da Leya. Os prémios Leya que li até agora eram realmente muito bons. O do outro "desempregado" é provavelmente dos livros mais bonitos e comoventes que já li. O problema é a eterna via do fácil em quem manda na Comunicação Social, a via do dar aquilo que se acha que o "povo" quer. A notícia que vende é a da desgraça. E assim vamos aniquilando as coisas boas que vamos tendo.

    ResponderEliminar
  5. Adolfo Bioy Casares, por exemplo, foi desempregado a vida toda. Na improbabilidade de alguma vez fazerem uma peça sobre ele num telejornal perto de nós, começaria por certo: "Um dos mais importantes escritores do Século XX esteve desempregado toda a vida."
    Nem quero pensar nas ilacções políticas que daí sairiam...

    Bom dia Mak.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.