10.10.13

A "lójica" do bairro



Gosto de lojas de rua, gosto de ruas e bairros que se prestam a ter comércio local e prefiro mil vezes passear numa Guerra Junqueiro a ir alapar com o lombo para o Colombo. Não sendo um anjinho, sei que a lógica comercial e o mindset do português andam de mãos dadas nas grandes superfícies mas aqui e ali vou vendo alguns sinais que tanto podem provar que as coisas podem ser mais equilibradas, como que não há esperança e os pequenos lojistas serão cada vez mais uma raridade, tirando em zonas da cidade muito específicas (dadas ao turismo ou a interesses de nicho).

Um factor interessante verifica-se em empreendimentos imobiliários relativamente recentes (ex: EPUL nas Forças Armadas, junto a Entrecampos) em que o construtor reserva espaço para lojas nos pisos térreos mas, em boa parte dos casos, é difícil encontrar exemplos de sucesso e quando os há, são quase sempre de restauração.

Não sendo um bairro típico, que tipo de lojas podem promover esse espírito e que entraves se podem colocar ao seu sucesso?

Primeiro, as rendas – Centrando no caso da EPUL, já que passei lá no fim de semana e o qual discuti com malta que vive lá, não tenho conhecimento da renda pedida, mas o bom senso (o mesmo que levou a câmara a licenciar quiosques em jardins a preços acessíveis) indica que é  melhor não cobrar os olhos da cara a ter um espaço vazio. Pena que alguns demorem a perceber isso.

Segundo, o tipo de negócio – a loucura das lojas de bijutaria, da fashion de ocasião e afins não costuma ter grande sucesso. Esse é o tipo de coisas que as pessoas podem comprar ocasionalmente, mas raramente o fazem nesse tipo de loja, onde não há oferta comparativa e onde é difícil sustentar um fluxo corrente de negócio. Uma loja de bairro (zona residencial) pede algo nesse espírito, por exemplo uma lavandaria self service à americana, com horários alargados e focada nas necessidades de quem mora na zona. Existe uma nesse bairro que visitei e o facto de não dever ter concorrência faz com que haja gente de bairros não tão perto como isso a irem até lá. Não é algo muito enraízado na cultura portuguesa, mas estando os tempos a mudar, parece-me uma boa oportunidade...
Uma loja de especialidade também pode vingar (artigos para bicicletas, que até estão na moda) mas, na minha opinião, só se o negócio também for suportado no online e estiver bem divulgado pela comunidade de utilizadores. O bairro em que se insere, se for central, melhor.

Terceiro, a dinâmica do bairro – Ter um café num bairro residencial, como pelos vistos há na EPUL e abrir apenas às nove e tal, fechar às seis e não abrir ao fim de semana é um convite ao fracasso. Um mini mercado que feche às sete e picos, oito da noite, também está a deixar escapar uma franja de negócio – a conveniência. Eu como qualquer coisa ali antes de ir para o trabalho, porque é o mais perto da porta, eu até pago mais 50 cêntimos para ir comprar pilhas ou um tubo de cola, se só tiver que virar uma esquina em vez de andar dez/quinze minutos para cada lado.
Somos preguiçosos, é o que é, mas infelizmente isso também acontece a pessoas que exploram negócios e não tiram o melhor partido deles. Uma casa de chá pode render mais que um café, mas uma hamburgaria pode valer mais que um restaurante se estiveres num bairro onde não faltam estudantes e universidades por perto.
Sem colocar apenas o esforço das pessoas na equação, por vezes o sonho de ter uma loja, está longe de se realizar numa loja de sonho se não se estudar a dinâmica do sítio onde estamos inseridos.

Sinceramente, isto são apenas gotas num oceano que as lojas de bairro têm que cruzar para sobreviver num país onde a mentalidade de shopping é cada vez maior, seja por preguiça, por conveniência ou porque, pura e simplesmente crescemos a ver centros comerciais brotarem como cogumelos.

Acredito também que essa sobrevivência muitas vezes deveria começar a ser pensada antes de ser executada em modo desespero. E apesar da maior parte das pessoas valorizar aquilo a que se chama vida de bairro, se não formos ao encontro das suas necessidades, da sua lógica de vida e da percepção de um valor acrescentado quando queremos explorar um negócio na porta ao lado, trocam-nos na hora.

2 comentários:

  1. Falando com alguma experiência da coisa, além das óbvias más escolhas do tipo de negócio a abrir, os valores de renda pedidos (como referes no inicio) continuam a ser em alguns casos completamente despropositados, considerando o estado da economia. Por isso ou morrem depressa (se alguém pega no espaço) ou nem sequer são alugados. Um exemplo - local em Alfama, numa rua de pouco movimento. Antigo restaurante. Pedem 2500 euros. Quem pegar naquilo ou é louco, ou quer fazer lavagem de dinheiro.

    R.

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    1. Sim, isso das rendas é o primeiro passo quando se passa à fase da decisão de "que espaço podemos ter?" (teoricamente depois de se ter estudado bem a implementação numa zona específica, o mercado, o retorno possível, etc)

      Não tenho qualquer dúvida que a falta de noção ainda impera em muitos locais e junto de muitos proprietários. Até em termos de habitação própria os arrendamentos ainda estão longe de reflectir a nossa realidade.
      Esse valor que me referes é de facto impraticável, salvo algo que desconheça e, curiosamente, é o mesmo que um superfície comercial que conheço cobrava há alguns meses por um daqueles spots no meio de um corredor. Escusado será dizer que quem explorou esse spot durou uns meses e depois fechou, como seria de esperar (eram cupcakes, outra moda com difícil sustentação)

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