24.10.13

A lilianemarisação da realidade


No que a televisão e conteúdos diz respeito, faço cada vez mais a constatação que, nesses meios, as pessoas cada vez mais se sentem atraídas por ambientes que misturam realidade e fantasia numa perspectiva sensacionalista – o chamado popularucho (termo que deve dar arrepios ao Zé Povinho).



E assim chegamos ao fenómeno Liliane Marise. Não sendo consumidor de novelas, mas compreendendo o que são estratégias de marketing multi-plataforma, o conceito chave aqui é “espremer a laranja até à casca”. O território da música pimba (popular, brejeira, etc) tem muitos territórios comuns com o das novelas e a Maria João Bastos criou um cromo (do qual é essencialmente refém) que, ao explorar os clichés todos, se tornou uma realidade vantajosa para a TVI e seus parceiros.

Podemos bradar aos céus que é uma piroseira, mas é uma piroseira com viabilidade comercial, como se comprova pelo facto de ter lançado um álbum que musicalmente é nulo, mas chega a disco de ouro. Produtora e actriz foram firmes a dizer que com o fim da novela o personagem morria, mas entretanto a história já mudou e tomem lá dois concertos, Meo Arena e Guimarães, que isto ainda rende mais um bocadinho mas depois fecha-se a loja. Por enquanto...

Não duvido que os concertos encham, que esta espécie de nuvem do “isto é uma brincadeira, mas passa para cá uns cobres” se vá esticando e que o fim de Liliane Marise seja sempre algo possível de ser suspenso.

Este tipo de estratégias não é novidade, lá fora os Spinal Tap foram uma espécie de modelo para o género mockumentary musical e por cá já muito mal se fez ao Tirol por causa de brincadeiras no género.



Depois disso vieram girls band na SIC, DZRT’s e afins na TVI e por aí em diante.

Liliane Marise é só mais uma ferramenta a explorar pela máquina de ficção da TVI, aplicada em vários níveis. A Maria João Bastos não é cantora e não o disfarça, mas isso não interessa nada, ela é a pessoa dentro do boneco e a malta quer é o boneco, como naquelas animações para crianças em que há um tipo vestido de Rato Mickey, mas que ninguém quer saber quem é.
(veja-se por exemplo: o facebook oficial da actriz tem cerca de 20 mil fãs, o da personagem 120 mil).
O delírio aqui é a lilianemarisação da realidade por parte de quem é fã. Referindo novamente o perfil de Facebook da personagem, é sociologicamente interessante verificar a “luta” entre os fãs, que defendem o trabalho da actriz e dizem que a paródia é que é fixe e os que oscilam entre a crítica à celebração da mediocridade e os que puramente caem no insulto fácil, protestando contra o lado sexy-rasca da personagem, etc.

Chamo-lhe lilianemarisação da realidade porque as barreiras que separam a ficção da realidade cada vez estão mais esbatidas, com reality shows que se estendem por áreas cada vez mais comuns do quotidiano e espectadores que por um lado criticam e gozam o que por lá se faz, por outro replicam, estimulam e amplificam comportamentos que lá têm origem. Uma cantora que não o é, é idolatrada como tal, e a consciência de que ela não é real tanto existe como pode não existir, as pessoas dizem que gostam é do boneco, o que até poderia ser compreensível num espectáculo ao vivo mas, por outro lado, compram em massa um disco onde só existe a expressão (pobre) musical desse mesmo personagem.

Estarão muitas pessoas a perder a noção e a papar tudo o que lhes põem à frente, apesar de pensarem que são elas que escolhem o que comem?

Não sei, mas seguindo por este caminho, pouco faltará para chegarmos ao actor que faz de político numa novela e que se torna tão popular que se cria um partido para ele poder concorrer às eleições mesmo que não perceba nada da matéria (hmmm, se calhar isto já foi feito e não demos por nada).

11 comentários:

  1. Eu diria que o boneco "Jel" criado pelo Nuno dos Homens da Luta já fez essa incursão na politica de que falas no final

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    1. Pois, o Jel tem a dimensão do homens da luta nessa área (embora eu também goste particularmente do personagem telefónico que ele criou e usava nos fóruns de programas da TV, em que todo o tema era manobrado para ir dar ao Benfica, era um grande exercício).

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  2. Só conheci a Liliane Marise no fim do Verão, quando todo o país andava a cantar a Mala Chique e as Pancadinhas de Amor há mais de meio ano. É um fenómeno que não consigo compreender, por muito que tente. É que nem como exercício de humor ou caricatura aquilo está bem conseguido. É só mau, mas não "tão mau que se torne bom". Multidões a encher pavilhões, discos nos primeiros lugares do top? Não percebo. Sinto pena da Maria João Bastos, não gosto de a ver fazer aquilo, mas todos temos contas para pagar e contratos para honrar. Acredito que é capaz de muito melhor. Sinceramente, e não seguindo a novela, só conheço a personagem de passagem e talvez por isso a actuação da MJB não me tenha convencido. Não "agarrou" a personagem, fico com a sensação que está a fazer um frete/esforço terrível e, na minha opinião, quando um actor é mesmo bom isso não se sente (ainda que, efectivamente, deteste o papel que lhe foi atribuido). Não gosto.

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  3. exterminem essa criatura o quanto antes, por favor.
    que ela exista, que se atire o barro à parede, está bem, há coisas piores (há sempre), mas porra, tantos fãs? a sério, isto ainda resulta? com tanto por onde escolher, dentro do mesmo género?
    desculpa, isto sou só eu a odiar estas coisas.

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  4. Há uns tempos vi numa revista qualquer que a Maria João Bastos estava farta que as pessoas a confundissem com a personagem. Se calhar as campanhas de publicidade e os concertos ao vivo não ajudam :s

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  5. O Manuel João Vieira bem tentou ganhar as presidenciais, mas o slogan "um ferrari para cada português" não convenceu. Provavelmente se fosse "um charro para cada português" tinha mais sucesso.

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  6. Adorei o teu penúltimo parágrago. Uma perspectiva interessante e, pensando bem, bastante real... se calhar. E depois há a velha questão, que já começo a referir de forma exagerada, de que o que fica bem é dizer que se gosta do que é fraco (associado ao ficar bem dizer que se é fraco... a história da falsa modéstia). Apesar de não ser totalmente comum, também não é raro alguém ser olhado de lado quando diz que ouve algo mais erudito, no entanto, é engraçado dizer que já se ouviram todas as músicas da nova banda da novela X, ou se pagou para ir ao concerto do parolo Y, porque é giro e divertido e a crise não chega a todo esse contexto de animação (claro está, a desculpa da crise tem que estar presente).

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  7. A Maria João Bastos ficou definitivamente refém da personagem. A contragosto ou não, por "contrato" com a TVI ou não, o certo é que ela lá vai alimentando o universo "pimba". Vai demorar anos até que o zé povinho volte a olhar para ela como a actriz Maria João em vez de como a personagem Liliane Marise. E duvido muito que isso ajude à carreira de uma actriz, principalmente no pequeno Portugal.

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  8. Claro que muitas pessoas se deixam manipular com demasiada facilidade. São seguidores, querem mais é que lhes digam o que devem gostar, o que devem pensar :(

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  9. O povo gosta de ser entretido e que brinquem com ele. O problema é que mais 50% da população portuguesa gosta de viver assim, na ficção

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  10. excelente texto, mak! esta tua última reflexão é assustadora...

    Mas confesso que este fenómeno da lilianemarizeção me passou completamente ao lado... só há poucos dias me apercebi o que/quem/de onde era

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