3.10.13

A epidemia do cursodeescritês


Começo por esclarecer um aspecto – sou totalmente a favor de cursos de escrita e de quem se interessa por escrever, explorar vertentes da escrita a que não esteja habituado ou, pura e simplesmente, divertir-se a fazer algo diferente da sua rotina e que envolva escrever.



Posto isto, falemos do flagelo do cursodeescritês.



Vivemos numa era em que, paradoxalmente, as pessoas leem cada vez menos mas escrevem (ou têm meios à sua disposição para escrever) cada vez mais. A par de uma necessidade de escapes da rotina, é fácil recorrer à escrita como forma de expressão.

O problema é que muitas pessoas ainda confundem escrever bem com escrever utilizando palavras difíceis, vocabulário rebuscado ou lirismos obscuros aplicados de forma desadequada. E assim chegamos aos cursos de escrita.



Quem está do lado da oferta nos cursos de escrita (quase sempre associada à categoria “criativa”, mas também nalguns campos mais técnicos) tem uma espinhosa tarefa à sua frente – por um lado está ali para ensinar/ajudar a capitalizar as capacidades e o interesse que quem se inscreve tem pela escrita, independentemente das capacidades qualitativas. Mas, quando as pessoas já chegam lá cheias de vícios e delírios, o formador tem duas opções – suspira e olha para o lado (está perante um cliente pagante) ou tem uma atitude crítica, de um ponto de vista construtivo (está também perante um formando). A verdade é que muitos cursos não têm a duração e o formato necessário para corrigir vícios, são construídos para dirigir um fluxo de escrita numa dada direcção. Daí que a atitude seja sempre muito mais contemporizadora, o que se percebe, mas que forma pequenos monstros de cursodeescritês.



Não é sempre assim, tenho um amigo que dá formação nessa área e, numa perspectiva crítica “boa onda” não dá borlas aos alunos dos cursos, até porque alguns dos que lá lhe chegam têm aspirações editoriais. Mas, traço geral, escudados no facto de terem que conciliar os objectivos comerciais com o carácter de workshop (que não implica uma avaliação qualitativa) lá vão deixando que o cursodeescritês prolifere.



Em tempos, pediram-me tipo aluno-tester-piloto para dar a minha opinião sobre um curso de escrita online (narrativas ficcionais) que era dado totalmente por via digital. Havia uma plataforma, havia um chat, um conjunto de módulos e tarefas e por aí em diante. Também havia uma certa dificuldade em encontrar gente que não escrevesse de forma romanceada, a ponto de parecer que estava sempre numa alucinação literária.



Ninguém escrevia “Olá boa noite, por acaso o formador X já deixou a tarefa para o próximo módulo?”, mas surgiam oito ou nove versões que algo como “Agora que deixámos o crepúsculo para trás e Lua nos beija suavemente o olhar, porventura o nosso bravo timoneiro terá gravado algures o propósito da nossa próxima e hercúlea demanda?”



Pode parecer exagero, mas tudo se passava assim nestes moldes. Tudo, da participação em fóruns a emails, posts e nem sequer vou entrar no detalhe dos exercícios que eram mantido em privado, tirando os exercícios de grupo.

Testei inclusive o formador, tipo porreiro ligado ao lado académico, autor, mas certamente com muita coisa entre mãos ao mesmo tempo – em certos exercícios exagerei na dose de adjectivos, noutros fui minimalista, em exercícios de grupo assumi uma linguagem dissonante da pessoa com quem trabalhava, só para deixar duas vozes que não eram coerentes a viver num mesmo texto. As correcções eram standard, com parágrafos escolhidos aleatoriamente para justificar certos aspectos e pouca coerência evolutiva em termos de crítica. Ou seja, ias sair do curso contente porque achavas que estavas no rumo certo e o professor era um bacano mas, na realidade, tirando algum conhecimento técnico não saías de lá a escrever melhor ou mais completo em termos da sua capacidade.



E isso é um problema? Era suposto ser de outra maneira?



Para mim só é problemático enquanto validação do cursodeescritês, sem que ninguém alerte as pessoas para as suas falhas num âmbito de uma formação, já que corrigir erros também é formativo. No entanto, já se percebeu que os cursos de escrita a vários níveis também são um negócio (e há diferenças entre cursos de escrita, seminários ou workshops) e os negócios precisam de clientes. E os clientes têm sempre razão. Mesmo que os clientes sejam alguém que no fim de curso, em vez de escreverem “Vamos fazer um jantar de turma no fim do curso para nos conhecermos ao vivo?”, escrevam “Agora que a nossa odisseia está prestes a chegar ao seu porto de destino, seria bom, diria até que me traria algum calor ao estômago poder fazer um repasto convosco e associar rostos às emoções que as vossas palavras me trouxeram ao longo das últimas semanas e quiçá sorrir ao ver que ainda são mais belos que os vossos textos”.

15 comentários:

  1. Finalmente percebo onde é que o José Rodrigues dos Santos aprendeu a escrever, era um mistério que me aborrecia deveras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fixei-me apenas no triunvirato José Rodrigues dos Santos - escrever - aborrecimento.

      Creio que chega.

      Eliminar
    2. Não tenho procuração para defender o JRS. Ele é crescido, sabe defender-se. Contudo, o seu a seu dono. Os livros dele são meticulosamente pesquisados, o homem fez um doutoramento em Comunicação Social e trabalhou na BBC (alguma coisa saberá). Talvez não tenham tido possibilidade de o ver "agarrar" a edição no noite em que começou a primeira guerra do Golfo, mas deu, na altura, provas de uma rara inteligência. Podemos apontar-lhe certamente defeitos. Mas que isso não nos cegue para as qualidades. Não, não foi de certeza num curso de escrita criativa.

      Boa tarde :)

      Eliminar
    3. Era miúdo mas lembro-me da cobertura da primeira Guerra do Golfo (até do Albarran...).

      Do ponto de vista de jornalista e de investigador, não pretendo sequer questionar as suas capacidades. E quando referi a escrita coloquei-lhe como sinónimo aborrecimento, só isso.

      Não me seduz a temática e acho a fórmula recorrente do histórico romanceado, com pilhas de cruzamentos de dados, algo batida na actualidade.

      Tem claramente os seus fãs e isso é perfeitamente aceitável, tal como não nego a técnica envolvida. Simplesmente, não me seduz.

      Bom fim de semana :)

      Eliminar
  2. “Agora que deixámos o crepúsculo para trás e Lua nos beija suavemente o olhar, porventura o nosso bravo timoneiro terá gravado algures o propósito da nossa próxima e hercúlea demanda?”

    Já ganhou. Deviamos ter um dia nacional de cursodeescritês, onde toda a gente comunicaria assim. Como o Caps Lock Day.

    Tenho dúvidas é se, de facto, andamos a ler menos. Sobretudo em Portugal. Não tenho dúvidas, no entanto, que as palavras "escreve muito bem" são usadas sem parcimónia no ensino em Portugal.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sou totalmente a favor desse dia André, já que actualmente há dias para tudo e um par de botas, neste pelo menos as pessoas exercitavam o vocabulário até à exaustão tortuosa (e sim, aquilo é só um exemplo suave de trocas de mensagens que me deixavam com vontade de espetar garfos nos olhos).

      O "ler menos" é de facto um terreno perigoso. Se for isento, diria até que as pessoas que retratei são pessoas que leem. O problema, tendo também em conta o que dizes sobre elogio fácil e pouco criterioso (se retirar a perspectiva mais cínica do elogio), será que muitas vezes quem elogia ou lê pouco ou confunde forma e conteúdo.

      Obviamente, isto é especulativo e não tem que ver com gostar do estilo A ou do estilo B. Da minha perspectiva continuo a achar que atirar ingredientes caros para um tacho com ar empenhado não resulta necessariamente num bom prato. Mas há quem se deslumbre com isso...

      Eliminar
  3. A necessidade de "monetizar" (a palavra não é formidável) a escrita leva a essas e outras aberrações. Seja no mundo académico (tem que haver nas Faculdades de Ciências Humanas algo equivalente aos Executive Masters das outras, não é?) seja no jornalístico, vidé o que o The Guardian faz http://www.theguardian.com/guardian-masterclasses/journalism-nuts-and-bolts-simone-baird-journalism-course?INTCMP=mic_231010), seja, simplesmente no "freelancer" que tem que governar a vida.
    E assim proliferam. Em Portugal, a procissão ainda vai no adro. Daqui para a frente, é sempre a descer.

    Bom dia Mak!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As necessidades geram oportunidades, nessa parte não vejo mal da oferta se adequar à procura. A monetização é que não devia implicar perda de critério, sem que isto queira dizer "Vamos lá arrasar qualquer bandalho que tente escrever sem arte ou, pior ainda, com arte a mais".

      Só que o facilitismo é uma tendência global e, mais do que cursos de formação, muitas vezes as pessoas procuram cursos de validação. E quem formar e engolir em seco para acatar esses desejos gera uma espiral negativa.

      Em quase todos os meios profissionais (pelo menos os que conheço de forma mais próxima) em que a escrita é uma função principal se começam a notar deficiência formativas decorrentes de falhas no ensino a esse nível.

      Se isso é o espelho a nível oficial, obviamente na parte do opcional, isso podia ser corrigido com os melhores profissionais a formar quem quer melhorar. Mas esse não me parece o panorama geral, dos dois lados da barreira.

      Eliminar
    2. E um resto de bom dia também :)

      Eliminar
  4. A São João tem um post onde diz exactamente o que eu penso sobre cursos de escrita.
    http://febredosfenos.blogspot.pt/2013/08/escrita-concreta.html

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Assino por baixo, sou até apologista de formação dentro das empresas para que as pessoas saibam como escrever emails claros e objectivos, assim como preparar documentos em que a argumentação base é a escrita.

      E atenção que isso não é escrita jornalística, que também tem técnicas específicas (e actualmente muitas vezes passadas a ferro).

      Continuaria a haver margem para cursos de escrita de outro género (criativa é uma palavra que me aborrece, é um atributo que devia estar na conclusão e não no princípio).

      Eliminar
    2. (concluindo)... sim, haveria margem, mas primeiro iríamos atender ao princípio básica da comunicação - comunicar de forma eficiente.

      Eliminar
    3. Relativamente à escrita jornalistica, dantes faziam-se coisas como o saudoso livro de estilo do Público, feito por jornalistas de tarimba, que entretanto já não aparecem nas bancas, nesta altura de redações cheias de estagiários mal pagos.
      Era um excelente princípio, que se perdeu...

      Eliminar
    4. Pois, tal como em outros meios, substitui-se experiência por baixo custo e o nível geral ressente-se.

      Eliminar
  5. Já foi dito, mas aquela prosa do “Agora que deixámos o crepúsculo para trás e Lua..." está do camano.

    A minha irmã ofereceu-me um curso de escrita criativa. Para quando deixar de estar coxo. Depois conto como foi.

    (eu consigo ser parvo. Não sei se é isso que me querem ensinar num curso desses)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.