28.9.13

Uma espécie de adulto numa festa para crianças



Os meus amigos estão a reproduzir-se a bom ritmo, mas não no sentido em que alguns deles estejam a empilhar crianças como quem assegura uma horda para lhes garantir o sustento na velhice após o colapso do sistema social, num Portugal pós-apocalíptico em que todos tenhamos que usar uma pala num olho.

A minha constatação prende-se apenas com o facto que, actualmente, entre gente que aguarda crianças e gente que já as tem forma-se uma espécie de teia que me envolve em actividades típicas de quem já tem descendência, apesar de ainda não pertencer ao clube.

Não levo a mal, antes pelo contrário, gosto que os meus amigos pensem em mim, até quando não me enquadro totalmente no cenário.
E assim chegámos à festa em que participei hoje à tarde – o segundo aniversário de uma menina espectacular. Teve lugar num espaço na escolinha dela, com direito a insufláveis (aos quais me negaram acesso depois de me prometerem que podia lá ir), triciclos, balões, jogo da macaca (é incrível como o facto de passarmos do metro e meio que tínhamos quando isso era um deporto opcional para 1,85m tira toda a piada ao jogo), piñatas e muita animação.

Também lá estavam pais, em grande maioria perante os não pais, apesar de não estar sozinho nesse lado da barricada. É muito curioso ver o comportamento das duas facções, pois é nestes ambientes de grupo que se observam as claras diferenças, quer na forma como os pais educam e vigiam as suas crianças, quer na forma como os não pais lidam com as pequenas vedetas do dia.

Para quem não é pai, tudo o que os putos fazem é tolerável, a paciência é muita e só o receio de estragar os miúdos por mau manuseamento é que gera algum afastamento. É natural, é um extra e quando a festa acabar não têm de continuar a ler o manual de instruções.
Entre os pais, assiste-se a uma clara divisão entre três clãs: o clã “o meu rebento é de porcelana e qualquer coisa que aconteça eu vou cair em cima dele como se fosse super cola3”, que os putos rapidamente exploram com choro táctico e manipulação de mestre, autênticos geradores de ansiedade parental a la carte; o clã “vigilantes sniper”, que controlam os miúdos à distância e os deixam aprender no meio da selva infantil, intervindo apenas cirurgicamente, ainda que às vezes com intensidade SWAT; finalmente o clã “epá, se calhar aproveito a folga”, um clã que tira partido do primeiro grupo e também do segundo para deixar ali os putos à solta e aproveitar um bocadinho um mix de folga entre adultos. Não se confunda isto com desleixo, mas sim com aproveitar as rodas da engrenagem e relaxar um pouco, dentro do relax que 10 ou 15 criancinhas a correr de um lado para o outro possam permitir.

Quanto a mim, para além da interacção infantil propriamente dita, a grande diversão do dia foi ver a expressão dos pais presentes que não me conheciam, quando em conversa me perguntavam se era amigo do pai ou da mãe e eu respondia “Não, não, os pais não conheço eu sou é amigo da criança...”
A cada três segundos de espanto e desconfiança após essa resposta, antes de eu fazer o sorriso de aviso de piada, a pequena criança dentro de mim deu mortais num insuflável.

6 comentários:

  1. suponho que o clã pais de putos de porcelana os tenha retirado do recinto antes que tivesse tempo de explicar que era uma piada.

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    1. Eu respeito o timing do humor e, traço geral, tento evitar motins, a não ser que a piada seja essa ;)

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  2. Sempre tiveste insuflável pra brincar, tal como os outros meninos :-)

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    1. Um insuflável mental bah...reles consolo.

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  3. Só quando tenho tempo é que venho aqui ler tudo o que perdi quando não tenho tempo (mau pra mim, que depois de tanta leitura fico sem tempo outra vez), por isso estou a ler isto de hoje pra ontem e reparei que o apocalipse vem à baila 3 dias seguidos... estará mesmo aí ao virar da esquina?

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    1. Eu dou-me bem com apocalipses aliás, eu estou completamente dentro da moda, já que tanto no cinema como na literatura o registo apocalíptico continua muito em voga ;)

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