4.9.13

O último gajo normal


Fui ter com o último gajo normal, ali para os lados de Moscavide. Pode parecer um sítio estranho, mas o último gajo normal recusa-se a viver noutro bairro que não aquele em que cresceu. Então e se tivesses de mudar? O último gajo normal não gosta de suponhamos, prefere lidar com realidade, por isso é provável que continue a responder à pergunta com algo como – deixa-te de merdas.



A vantagem de combinar coisas com o último gajo normal é que, embora não sejam combinações frequentes, ele não manda sms a desmarcar, nem liga quatro vezes para o telemóvel a alterar o programa, a confirmar coisas ou a relembrar o encontro. O facto de não ter telemóvel faz dele um tipo mais fiável, ainda que goze com ele por causa disso – parece que és um velhote, só com um telefone fixo, deves ser uma raridade entre gajos com menos de quarenta anos. O gajo ri-se, diz que podia ter telemóvel, mas que assim as pessoas cumprem mais com ele – Além disso, não estou a levar com chamadas da tanga a toda a hora, tanto de gente que não conheço de lado nenhum, como de gente que conheço bem de mais.



O último gajo normal é muito bom naquilo que faz profissionalmente, mas aquilo que faz não é moderno, nem é vintage, é normal. E as pessoas cada vez mais precisam de quem faça as coisas normais por elas. Tu não aspiras à fama, não gostavas de ser reconhecido pelo teu trabalho? Ele sabe que estou a testá-lo e não me dá troco – Sabes bem que até a casa não gosto de aspirar, quanto mais à fama. Hoje em dia a malta quer estar dentro da televisão e à frente dela a ver-se lá dentro, isso não me parece muito normal.



Às vezes, o último gajo normal, que usa email apesar de não ter telemóvel, vai correr comigo. Mas, não gosta de ir a corridas “a sério”, diz que para ele correr é apenas uma coisa normal e que é bom para conversar. Ultimamente, quando não consegue conversar e correr ao mesmo tempo, o último gajo normal diz-me que anda mais cansado que o costume.



Íamos precisamente a correr quando me disse que às vezes achava que não era normal. Só não parei porque sabia que isso iria interromper a conversa. Continuámos, porque efectivamente não era normal o último gajo normal estar a desabafar.

Eu não vejo as coisas como os outros, e quando os outros são mais do que eu, se calhar sou eu que não sou normal. A normalidade é uma maioria não?

Hmmm, não sei bem se é assim, afinal somos todos um bocado anormais, se formos bem as ver as coisas, por isso não te preocupes.

O último gajo normal olhou para mim, para ver se estava a gozar ou a falar a sério. Não precisou da ajuda do público para saber a resposta certa.

Deu-me uma palmada no ombro, riu-se e queixou-se que ultimamente andava mais cansado. Seguimos em silêncio.

O último gajo normal também tem sentimentos, mas disfarça. É normal.

6 comentários:

  1. A normalidade é um estado cada vez mais alterado. Tens sorte, eu não conheço pessoas normais normais.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Normal, normal é demasiado normal para não ser anormal ;)

      Eliminar
  2. Eu pensava que já não era normal haver pessoas normais. Folgo em saber. ;)

    pippacoco.blogspot.pt

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Dizem-me que existe outro, para os lados de Miraflores, mas a mim não me dá jeito cruzar a cidade para ir confirmar ;)

      Eliminar
  3. Gostei do texto. Penso que classificar as normalidades não leva a quase nada. Tb gostei do gajo normal, espero que não seja mesmo o último :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. À sua maneira, é o último mas, como ele, podem haver outros últimos algures...

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.