23.9.13

O saco dos textos



Tenho um saco cheio com textos que mandei lá para dentro em vez de os deitar cá para fora. Quando a preguiça, a falta de inspiração ou a nostalgia atacam, gosto de lhe dar uma espreitadela. Lá há de tudo, porque o saco é tão velho quanto eu e o vou alimentando desde pequenino.

O que é engraçado no saco é que lá não há ordem e, quando espreito tanto me sai algo que coloquei lá a semana passada, como algo que lá deixei no final da escola primária, quando a Maria Rita me escreveu uma carta num envelope da Betty Boop e eu lhe escrevi outra, que deixei no saco, porque preferi ir falar com ela uma vez que não confiava no nosso pombo correio. Note-se que o Mak juvenil até em motivos do coração já arriscava trocadilhos suspeitos. Ah, como foi grande a tua evolução pequenito.

No saco está também a primeira versão de muitos textos, porque o meu eu racional muitas vezes me recomendou que primeiro deitasse cá para fora a primeira coisa que me viesse à cabeça (em regime desabafo, crítica e afins) e depois lhe desse a revisão e os acabamentos necessários. Nem sempre o meu eu emotivo concordou e tal não é de recriminar – só fica a pena de não ter o esboço de algumas coisas na minha posse.

Poderão pensar que o saco de textos é um saco de medos e receios, mas está longe disso, embora não negue que alguns moram por lá. Mas lá também cabem delírios, experiências, projectos futuros e coisas que o timing perdido não deixou virem cá para fora.

Alguns sobrevivem pelo apego emocional, outros pela esperança de voltarem a ganhar sentido. A alegoria do cemitério dos chapéus de chuva, por exemplo, já que dizem que chove antes do fim da semana.
Contudo, dentro do saco também estão os textos que queimam e que o fazem de duas formas – pelo passado e pelo presente. Os do passado representam oportunidades perdidas, das mais diversas espécies. Não sou de arrependimentos, mas também não sou de apagar o passado e cada degrau faz sentido, quer seja a subir ou a descer, até porque a perspectiva será sempre nossa e não do degrau.

Os que queimam pelo futuro, preocupam-me mais, porque lhes devo a oportunidade de falhar ou ser bem sucedido, qualquer uma delas melhor do que nunca sair do saco tirando para meu breve deleite. Os guiões, os contos e as ideias para esboços e coisas maiores e tudo o que ponho no saco com a promessa de poderem sair já amanhã.

O amanhã já é hoje e já que estou com a mão no saco...

3 comentários:

  1. vai abrindo o saco aos poucos. E deixa que as palavras apareçam por aqui.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

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  2. Eles que venham cá para fora, antes que o Jesus vá parar "lá" dentro.

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  3. Fazes uma compilação cronológica e vais ver que ainda sai livro !

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