1.9.13

O piropo: uma espécie de Dr.Jekyll e Mr. Hyde



Nos dias que correm, o tema piropos é sensível.




Pelo meio, tive oportunidade de ler várias opiniões femininas sobre o assunto, umas mais desculpabilizantes outras mais penalizadoras mas, apesar de ser homem, tento perceber o desconforto que tal possa causar. Que posso eu acrescentar a esta questão, uma vez que o homem é, por norma o emissor e raras vezes o receptor?



Primeiro, sem ser só semântica, a meu ver há uma distinção: um piropo, no sentido tradicional mais puro da palavra, é um elogio popular de índole simpática ou até poético, sem ter necessariamente que ver com uma conotação sexual agressiva ou grosseira. Pode ser mais rústico, mais cómico, mais galanteador, mas nunca será ofensivo. A coisa pode variar em sensibilidade, consoante é alguém conhecido ou um desconhecido que o emite mas, nesse sentido, também se distingue do elogio que será porventura o seu primo mais culto ou verbal.



O problema, além da barreira sempre difícil de gerir sensibilidades alheias é que, colado ao piropo, está também tudo o resto que vai do comentário grosseiro à provocação boçal ou à insinuação ordinária, enfim tudo o que se define genericamente como falta de educação.



Seja em grupo ou isolado, para uma mulher sozinha ou também em grupo, este último tipo de abordagem, sobre a qual concordo com a designação assédio verbal, por norma é usado em mulheres por homens que não as conhecem. É algo condenável, mas é também uma situação ligada a um problema bem maior – a falta de educação/respeito pelo sexo oposto.



Antes de mais, não vou vestir aqui o papel de santo beato e dizer que nunca emiti um comentário sobre uma mulher que não conhecia baseado apenas no seu aspecto físico. Acrescento, no entanto, que nunca o fiz directamente e tentei ser discreto, evitando que ela desse por isso. Espero ter conseguido. Mas sei bem que há muito gajo que não tem essas preocupações ou dilemas, tal como infelizmente haverá também algumas mulheres que confundem boçalidade e insinuações de quinta categoria com humor e galanteio.



E o problema continua a ser – falta de educação. Não é algo que se resolva com multas, com proibições, especialmente num país de brandos costumes como o nosso (e o lado mau do alegado piropo não se limita a Portugal, obviamente). Se virmos algumas das leis que existem em Singapura, como por exemplo não mascar pastilha elástica na rua, a nossa reacção será rir e achar que o pessoal lá é todo maluco e controlador. Mas se lá formos, sabendo das penalizações duras, aposto que vamos cumprir com a regra, salvo desconhecimento.



Qual a solução então? Polícia dos costumes? Pulseiras de choques eléctricos para prevaricadores reconhecidos?



A verdade é que não acredito em soluções institucionais ou leis punitivas para coisas deste género, a não ser em casos extremos. A falta de educação cívica, é algo que se pode tentar mudar com educação futura, com um esforço geracional e, ainda assim, só acredito no atenuar da coisa a médio prazo e não no seu desaparecimento. Acima de tudo porque, essa mesma falta de educação não é exclusiva de trolhas e das camadas mais baixas, é transversal e o piropo é só uma das facetas visíveis, infelizmente penalizando quase exclusivamente as mulheres.



No geral, continuamos todos, de uma maneira ou de outra a gozar e a abusar das fragilidades quem é, por exemplo: gordo, baixo, peludo, careca, deficiente, mal vestido, gago, enfezado, míope, desdentado e burro ou inculto.

Por um lado é isto que alivia o fardo da nossa imperfeição, que nos ajuda a nivelar o peso de vidas mais ou menos realizadas, mas também é isso que nos magoa, repetidamente, porque continua a ser muito fácil fazermos mal uns aos outros, especialmente aos que são alvos mais fáceis.



Pouco a pouco, podemos ir tentando mudar mentalidades e isso já é trabalho hercúleo mas, para começar, podemos tentar não chamar piropo ao que é, acima de tudo, vulgaridade e grosseirismo.

8 comentários:

  1. bem, este foi o melhor post sobre o assunto

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  2. Se eu soubesse escrever bem seria exactamente isto que eu escreveria.

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  3. Eu acho que se está a confundir realmente a forma com o conteúdo: o facto de se utilizar linguagem grosseira não significa que se está a insultar alguém. Se eu disser "f%$#se, que gaja boa", estou apenas a dizer, num português mais poético "que bela mulher". Alguém se deve ofender com isso? Devo ser punido? Onde está a fronteira entre o piropo e o insulto ou o assédio?

    pippacoco.blogspot.pt

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    1. Não sei se percebi bem o que disseste, mesmo tendo em conta o factor ironia. Mas, dando exemplo do que penso:

      Piropo (vejo-o como uma metáfora elogiosa, sem descambar em linguagem grosseira/teor sexual, mesmo que não seja explícita) - os clássicos "flores que andam", "Ver estrelas sem ser de noite", "estou no céu porque aqui há anjos" e por aí em diante.

      Elogio - É uma referência directa: esse "que bela mulher", o "hoje estás bem gira" e por aí em diante. Creio que será mais raro ouvir de desconhecidos, pelo menos sem uma relação circunstancial de proximidade.

      Javardice pré-hardcore - Já descambou, é ofensivo e já leva com matéria duvidosa para qualquer sensibilidade. Mesmo que seja metafórico, já é grosseiro.

      Javardice hardcore - Alusões directas, palavreado hardcore, ostensivo e com claro constrangimento de quem ouve, mesmo que não seja visado.

      Obviamente, a questão da sensibilidade de quem ouve também pode fazer variar a ideia do que encaixa onde mas, nessa matéria as duas primeiras categorias serão talvez as que seriam socialmente aceites, sem entrar numa espiral descontrolada.

      Ah e não esquecer que há olhares que valem tanto ou mais que palavras (tanto para o bem como para o mal).

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  4. “Que posso eu acrescentar a esta questão, uma vez que o homem é, por norma o emissor e raras vezes o receptor?”

    Para que nada te falte…

    O Piropo: És o macho alfa do rebanho blogueiro!
    O Elogio: Tens um post que é um mimo!
    A Javardice pré-hardcore: Lambia-te esse post todo!
    A Javardice hardcore: Censurada, é só dar largas à imaginação depois de ler o post dos mamilos sangrentos…

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    1. Isso é um autêntico estudo de caso :)

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  5. Obrigada pela que é, sem dúvida, a opinião mais lúcida que li até agora sobre este tema. Já vi levantarem, por este episódio, a bandeira da "guerra dos sexos"... Sabe duplamente melhor a ironia de me rever na tua opinião, a de um homem. :)

    coisasdosintas.blogspot

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    1. Bem, começando por ser de facto a minha opinião, fico contente por haver quem a partilhe, seja homem, mulher ou o que mais houver :)

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