20.9.13

O drama do actor Manuel F.



Desde pequeno que Manuel F. tinha o sonho de ser actor, um sonho que cresceu mais do que ele, já que Manuel F. nunca deixou de ser pequeno, pois aos 21 anos ostentava no seu Cartão de Cidadão – 1,61m de altura.



Manuel F. sempre brincou com a sua altura dizendo que, já que não podia ser um actor grande, só lhe restava tentar ser um grande actor. Muita gente aplaudia o sentido de humor de Manuel F., coisa que o próprio não podia fazer, uma vez que um incidente com vidro laminado, caído de uma carrinha que se despistou junto à sua escola lhe tinha causado a perda da mão esquerda, tinha Manuel F. cerca de oito anos.



Não fora esse infortúnio que lhe tirara as aspirações, pois Manuel F. era determinado e acreditava que o facto de não ter uma mão o iria fazer agarrar com mais força as oportunidades que lhe fossem parar à outra. Perante esse querer, não faltava quem dissesse que a carreira do miúdo tinha pernas para andar, arrependendo-se logo de seguida e pedindo desculpa quando tal opinião era emitida em voz alta. É que Manuel F. tinha perdido parte da perna direita quando a sua escola secundária desabou, na sequência de uma demolição não autorizada levada a cabo pelos alunos do Curso Técnico Profissional de Demolições, Construção Civil e Fogos de Artifício.



Manuel F. não levava a mal, dizia que o facto de não se poder pôr em bicos de pés o ensinara a ser humilde e a dar valor a cada passo na sua vida. Que riqueza de carácter, elogiavam, fazem falta actores com esse tipo de visão. Referiam-se obviamente à visão ao nível de personalidade, pois Manuel F. usava uma pala no olho esquerdo, fruto de uma rixa numa cadeia de fast food em que tinha ido celebrar o seu 19ª aniversário, ocorrida na sequência de food-bullying a um miúdo que lá entrou disposto a comer com talheres. Ao tentar apartar a confusão, Manuel F. acabou com um garfo num olho e um crédito vitalício para poder usar em refeições na “Van Dog”, uma cadeia especializada em cachorros quentes holandeses, se bem que a parte do holandês ao que se sabia estava circunscrita à utilização de queijo flamengo, algo muito contestado por produtores portugueses de queijo.



A pala não o incomodava, como ilustrava a frase que tinha na sua Facebook cover “Uma vida a comer cachorros à pala”, cover que tinha rendido 397 likes e 49 comentários, alguns deles com mais do que palavras como “LOL”, “Brutal” ou “Xpetacular”. O comentário com mais likes, 9, era o de um amigo seu especialista em trocadilhos de ocasião “Manel, estás de olho no burro ou no cigano? Nos dois é que não pode ser”.



Apesar de todas estas contrariedades, Manuel F. nunca desistiu da carreira de actor, pode dizer-se que tudo isto o tornou ainda mais focado no seu objectivo. No curso de teatro infantil toda a gente adorou o seu Capitão Gancho, ao ponto de na peça da escola terem vaiado Peter Pan quando este o derrotou no derradeiro combate. No atelier comunitário do seu bairro, onde foi o mais jovem membro do elenco, o seu pequeno papel como Jeremias, o filho do talhante, foi elogiado até por alguns blogs e sites culturais, que viam nele “a força de um pequeno actor que faz de encher salsichas alemãs um acto de dor e coragem”.



Na universidade, na qual frequentava o curso de “Animador Social e Técnico Especial de Recobro de Alento à População Desiludida”, teve a sorte de conhecer o irmão de um produtor da TVINAPÁ, uma das maiores estações independentes do país. Quando o GruPO 100CENA S COMEÇADAS POR CENA a que pertencia levou ao palco no Auditório Quase Principal a peça “Zarolho 1 Fome 0”, uma peça que falava da falta de visão da sociedade em relação a problemas fundamentais que a rodeiam, do encenador e autor experimental Ediberto de Lourenço, um homem que tinha falhado na política aquilo que não tinha falhado à mesa de refeições e que, aos 43 anos e 198kgs, via em cada peça o seu possível acto em vida. Manuel F. tinha o papel principal nessa peça e arrebatou plateias mas, acima de tudo, arrebatou o produtor da TVINAPÁ.



Uma semana depois tinha um convite na mão, literalmente, na forma do argumento da nova novela da TVINAPÁ, “Sombras de um destino que me come à bruta”. E aí começou o drama na vida de Manuel F., actor.



O papel de Zé Napa, o DJ da rádio local em Vale da Franca-Porta, era um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo e era essa a decisão que tinha nas mãos. Perdão, na mão. Era um papel que o podia catapultar para o sucesso mainstream, mas ele sabia bem o que tinha acontecido a Clara P. a actriz teenager que sofria de Tourette e tinha nascido sem uma orelha, estrela da mini-série da TVINAPÁ “Cruzamentos, enganos e apalpões às escuras”. Usaram-na e depois da mini série obrigaram-na a entrar no reality show “Orelhas de Burro”, onde convidados e vedetas respondiam a perguntas de cultura geral e, traço geral, eram chamados de burros. Clara levara aquilo a peito (um peito novo, feito assim que chegou aos 18 anos, de muito boa qualidade, vindo das salinas de Fort Gordon nos EUA) e ameaçara entrar em depressão, tomando logo meia caixa de comprimidos para avisar, o que tinha deixado internada umas boas temporadas. Depois disso, não voltara a ser a mesma.



O drama de Manuel F. estava ali e a solução não estava à mão de semear (sem ofensa Manuel, isto tem calhado assim, com a história das mãos) – arriscar na máquina trituradora de actores ou continuar a deslumbrar longe do olhar do mundo. Ainda por cima, o papel exigia um penteado despenteado, trademark de Zé Napa e Manuel F. sempre tinha sonhado com isso, especialmente desde que a sua mão lhe tentara alisar os caracóis com um ferro de engomar.

10 comentários:

  1. Impossível não gostar de Manuel F., um ícone para a geração de finais dos anos 70 e início dos 80.

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    1. Manuel F., dentro da sua mortalidade é uma espécie de imortal, mas sem espada e música dos Queen a acompanhar.

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  2. Grande Manuel F. que, mesmo perante as vicissitudes infelizes da sua vida, soube agarrar com mão forte o seu sonho. Tantos outros houveram que com duas não os conseguiram agarrar tão bem.
    Aguardo um final para esta tão interessante história!
    (parabéns)

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    1. A história de Manuel F. ainda está longe de ter um fim, até porque segundo ele "Os terceiros actos são curtos e incisivos, é uma espécie de Slide&Splash, mas sem ficarmos com os calções enfiados no rabo".

      Sempre às ordens ;)

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  3. Isso fez-me lembrar aquela cena da luta do Monty Python and the Holy Grail em que o gajo fica sem pernas e sem braços mas não desiste.

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    1. Gosto aí da parte em que ele, já sem braços, dá marradinhas nos outros. Mas Manuel F. tem potencial para ir mais longe, nem que seja para ir comprar tabaco.

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  4. Ora aí está uma biografia que Woody Alen podia facilmente incluir num dos seus livros, ou Robert Rodriguez ao cinema. Ainda estou na dúvida.

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    1. A Manuel F. preocupa mais a hipótese de se ver dividido entre o convite desses dois cineastas. Se por um lado, o Woody é o sonho intelectual chique de qualquer actor, por outro Mariachi Rodriguez é a oportunidade de uma vida para brilhar e dar profundidade seja a um papel de zombie, seja a qualquer coisa que implique ter uma arma de fogo na mão e uma tipa voluptuosa por perto.

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  5. E até Manuel F. que podia ser F.(oda-se), chegou à grande questão que parte o crânio em dois: continuar ou não continuar, eis a questão; to be or not to be, ficar ou partir.

    E escavacamo-nos todos.

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    1. Já se viu que Manuel F. é daqueles que antes quebrar que torcer. E, por mais que quebre, vê-se que é um tipo torcido...

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