13.9.13

Estou dentro do Eça de Queirós



Poderia ser um exercício espírita, o arrogante pressuposto de que eu é que sei como é que os Maias poderiam ter uma nova abordagem, numa mistura de Gangs of New York, o Predador e o Thelma & Louise ou, numa versão mais simples, a constatação de que estou dentro de um avião que recebeu esse tão ilustre nome.

Tecnicamente, relato-vos esta situação com delay pois felizmente os aviões ainda são uma espécie de santuário à prova de internetodependência mas, numa espécie de homenagem ao poder descritivo do tio Eça, arrisco o exercício.

Gosto do acto que separa a executiva da económica, o encerrar cerimonioso da cortina que divide os comuns mortais voadores dos eleitos. Não sendo um destes últimos não sinto qualquer inveja, tenho a certeza que se isto correr mal não terão tratamento preferencial no acesso ao outro mundo, seja ele qual for.

Um conjunto interessante, o dos eleitos, embora os voadores profissionais estejam em minoria. Levam com a companhia de um atleta e possivelmente do seu treinador, de um dueto de senhoras decoradas a rigor com muitos anos de vida, muito ouro e pulseiras e algum Botox ou coisa que o valha. Duas miúdas queques, uma delas possivelmente num dos seus primeiros vôos, despedem-se da mãe, despachada para a económica pois viagens de inspiração de último momento têm o inconveniente de te sujeitares ao que sobrou.

O ambiente está calmo e ao meu lado direito, já na zona do povo, está um cabeceador nato. Vencido pelo cansaço, na casa dos 50 anos, tombou depois do serviço e de um copo de vinho e já me disse que sim com a cabeça perto de cem vezes. É impressionante a luta entre o equilíbrio e o sono, não lhe parece? (ele concordou, acenando)

Olhando mais para a geral, parece que um vôo a seguir ao almoço promove o sono e a leitura, tirando aos que se nota à distância que não são grandes adeptos de voar. Não é o meu caso, quando sei que nada está nas minhas mãos e nada que faça altera as circunstâncias, é um bom momento para relaxar.
(o vizinho da direita concordou novamente)

Dos livros que vejo, curiosamente quase nenhum é em português. Já as revistas do social dominam nas mulheres lusitanas acima de 45 anos. À minha esquerda, a excepção, com um "Visconde cortado ao meio" que foi apenas pousado para um momento de relax. Apetece-me elogiar a escolha, mas seria um truque baixo, pois na realidade fui eu que o escolhi e não há necessidade de criar um enredo onde ele não existe.

O pessoal de bordo não é jovem, mas pelo menos é acessível e profissional. A última experiência que tive com TAP e gente experiente mas sem grande empenho em mostrar profissionalismo, tinha me deixado algo reticente e a pensar que muitos anos a voar podia causar azia mental.

Avisam agora que vamos começar a descer. O vizinho da direita parece concordar com a informação.

Para onde vou? Vou fazer uma surpresa a alguém que se queixa que os amigos de Portugal nunca aparecem. Mas, no tempo do Eça não existia a possibilidade de postar posteriormente fotos de cenários descritos ao estilo pós moderno. Muito menos escrever o prólogo num avião.

E espero que não levem a mal o facto disto já ter sido escrito ontem e, por esta altura, já estar um capítulo à vossa frente.
(o senhor da direita acena me que sim,  que tudo vai correr bem, confio no seu positivismo e discernimento).

4 comentários:

  1. Queira receber os votos de uma boa viagem de regresso, de um leitor assíduo, que não gosta de ver um post de tamanha expressividade sem comentários.

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    1. Muito obrigado, o regresso só mais a meio da semana, mas nunca será por falta de comentários que deixarei de mandar o meu bitaite.

      Ainda assim, é bom saber que há quem volte aqui sem ser masoquista ;)

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  2. Mak, nem todos os aviões são esse santuário "internet free". A TAP já tem o serviço no A330 Pedro Nunes. Quando viajares nesse já podes fazer os teus posts em directo :)

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    1. Tenho medo que, ainda assim, um cromo destes a fazer posts em directo possa perturbar os instrumentos...

      Mas, é bom saber, desconhecia essa particularidade.

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