18.9.13

Dois papagaios e um avião

Ou "As pessoas que vão atrás de ti no avião são como a família - Não se escolhem".

Certos papagaios julgam que são mais do que papagaios. Têm uma pose superior, cuidam que porventura são papagaios de negócios, habituados a vôos mais altos.

Acontece que, ironicamente, este tipo de papagaios não voa por si e, como tal é obrigado a voar dentro de aviões normais, com pessoas como eu, que porventura preferiam levar na fila de trás com crianças birrentas ou até idosos flatulentos.


Para estes papagaios, que esgotam na indumentária e no trolley qualquer semelhança com jovens empresários de sucesso, uma viagem de duas horas e picos não é apenas uma jornada de A para B, a oportunidade de repousar um pouco ou uma boa altura para adiantar trabalho - é uma comédia de costumes. Maus costumes, por sinal.


O facto de pensarem estar rodeados de estrangeiros (eu engano bastante devido às minhas longas tranças loiras...) confere logo direito a duas ou três "caralhadas" por frase, naquele jargão pintas de papagaio para quem andar de avião dá comichão, nem que seja porque "epá, o ar cá em cima faz-me secar a pele, até a dos tomates...". A essa bela característica, junta-se o da dupla de papagaios palhaços em que o humor inexistente, em doses grosseiras e boçais, tem eco apenas no riso de um e do outro, alternadamente.


Os bocejos de boca aberta vão pontuando a gabarolice de quem foi ao estrangeiro em trabalho, mas álcool, gajas e regabofe são ingredientes que ficam sempre bem para impressionar o parceiro. Ui, espera lá, que o bom papagaio burgesso não podia esquecer a leve piada que esconde racismo latente e falta de educação gritante.

Aquela educação oca, que faz com que estes papagaios saibam agradecer ao pessoal de cabine e acrescentar "se faz favor" no fim dissipa-se alguns segundos depois, quando se referem a eles por finos traços como "hospedeiras boas nem vê-las, aqui só dá carecas e badochas".


A sua conversa sobrepõe-se ao comum diálogo em voz discreta, que a falta de espaço de uma aeronave mais pequena recomenda. O que só traz mais cinzentismo à espécie de papagaios que são.
Dois papagaios de penas falsas que dariam pena a sério se o meu desprezo por quem se consegue reduzir à vulgaridade sem ajuda não fosse maior. 


A verdade é que, por mais selectivo que seja em relação às pessoas com quem viajo, o meu poder não se estende às filas de trás. Salve-se o Bolano, a música e a escrita em pleno vôo que sempre aliviam a alergia a papagaios.

6 comentários:

  1. boa viagem. há muito boa gente que ainda acha que ter um bilhete de avião na mão lhes dá um poder e glamour qqr superior... enfim... burgessos do ar

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    1. infelizmente, pela forma como se comportam num avião, quer perante quem lá trabalha a bordo, quer com quem dividem um espaço próximo, podem-se tirar várias conclusões sobre o tipo de civismo ou a falta dele que ainda existem por aí (e não é exclusivo de Portugal, longe disso).

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  2. A mais fina flor da sociedade! ;)

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    1. Flores que sem dúvida alguma tens o "prazer" de colher com frequência, suspirando perante o facto de não as poderes atirar ao vento pela janela.

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  3. Acho que são esses que depois só vão ao facebook falar mal da TAP para toda a gente saber que andam de avião. E restaurantes de luxo.

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    1. Autênticos trolleys, mas sem eys no fim...

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