8.9.13

Da sobrevivência

Enfardei.
Tentei levantar-me.
Depois enfardei mais.
Levantei-me, mas não fui longe.
Enfardei mais um bocadinho e disse que não conseguia mais.
Vi cenas estranhas, talvez de tanto enfardar e vi muitas rotundas.
Tentaram que eu enfardasse mais um bocado e serviram mais um copinho para ajudar.
Não chorei, porque um gajo não chora perante comida.
Simulei a introspecção para me afastar um pouco, não fosse chegar mais comida.
Chegou mais comida, sem qualquer consideração por gajos pseudo-introspectivos.
Pensei abolir o princípio de não chorar perante comida.
Pelo meio, muitas coisas se passaram em background, mas o fogo cerrado de comida dificultou-me a vida.
Consegui reter algumas imagens, premindo botões com dedos gordurosos de comida. Quando o pleno raciocínio me voltar pretendo elaborar um relato mais coerente.
Agora vou continuar a fugir de avalanches de comida e começo já as férias amanhã pela fresquinha a correr.

Sim, porque eu sei que esta gente afável e simpática do interior usou tudo o que conseguiu para me fazer enfardar. E não são 300kms de distância que chegam para me fazer esquecer disso.





6 comentários:

  1. Ui, o local afastado da civilização do post anterior (para um tipo de lisboa) era viseu?

    Acabei de chegar lá e juro, quando li aquele post ,pensei que não poderias ter estado em sítio pior do que eu.

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    1. Não esqueçamos, como referi, era um gajo de Lisboa a falar com a cabeça cheia de mitos e lendas de acontecimentos passados em terras plenas de sotaque beirão.

      É certo que, dezenas de rotundas mais tarde, certas teorias foram postas no devido sítio (o caixote das teorias), no entanto, tirei a barriga da miséria no contacto com diversas variante do sotaque (culpem o Diácono Remédios, que me instituiu esse chip).

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    2. Hmm...se calhar se tivesses de ir lá com alguma frequência, acabarias por eventualmente ir repescar umas teorias ao devido sítio.

      Digo eu, também uma tipa de lisboa, que não acreditava em mitos até ser vencida por eles.

      Consolam-me os viriatos, ao menos.

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    3. Pois, do ponto de vista do turista de três dias, a perspectiva é sempre diferente da do visitante/desterrado recorrente.

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  2. Eu sei tão bem o que isso é. A palavra mais utilizada no concelho de Viseu é "come". Se a CIA soubesse o que é passar uns dias na Beira-Alta vinha buscar uma avó de Viseu para torturar prisioneiros em Guantánamo.

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    1. Fui ameaçado numa tasca - "Comeu o bacalhau e então essas batatinhas, hein? Para a cozinha só volta a loiça..."

      Percebi que não estavam a brincar e cumpri as indicações...

      Sei bem onde estão os duros.

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