24.9.13

Como conquistar um leitor?



No estaminé desta senhora, a propósito do lamentável desaparecimento de um ilustre poeta luso, veio à baila o tema – como se conquistam leitores? E, na fase da conquista, deve quem escreve adaptar-se a quem lê ou a sedução deve passar por tirar desafiar o leitor a sair da sua zona de conforto?

Vou dar de borla o sentido blogosférico da questão, onde é fácil mimetizar exemplos de sucesso (do ponto de vista de números de leitores) e onde a faceta voyeurística é superior a outros meios, a par da interacção que pode ser promovida entre autor/leitores.

Admita-se que estamos a falar de um autor que nos seja totalmente desconhecido, porque a fidelização tende a deturpar a nossa isenção.

A forma como alguém escreve é mais importante do que o tema que é explorado? O poder da recomendação já é mais forte do que uma pré-avaliação feita por nós? Um rancor à primeira sinopse vista pode ser superado com uma segunda oportunidade?

E, uma questão cada vez mais importante no mundo da literatura vs. a disponibilidade mental da sociedade em que vivemos – o tamanho importa? (tenho visto por aí vários calhamaços a circular, numa época em que a tendência é para a redução da capacidade de concentração de gerações futuras)

Creio que a tarefa será cada vez mais difícil, diria até em modo especulação que entre os 25-35, malta com hábitos regulares de leitura de livros serão em média para aí 4 em cada 10. Entre os 15 e os 25 diria, conservadoramente, que a média tenderá futuramente para metade disso. Que impacto terá isso na produção de conteúdos literários?

Não tenho respostas mais válidas que as vossas mas, do ponto de vista de quem também tem que escrever para ganhar a vida, ainda que não literariamente, vejo à minha volta em gente mais nova que faz o mesmo que eu, os primeiros reflexos de uma vida longe do amor pela leitura. Boas ideias traduzidas de forma pobre para a execução escrita, um ou dois truques aprendidos como recurso fácil e recorrente, aplicados até exaustão. O endeusamento de qualquer composição escrita que supere a sua capacidade (a cena da terra de cegos e os gajos com um só olho), a repulsa perante toda e qualquer temática que não seja apelativa à primeira vista ou obrigue a raciocínios mais complexos. São apenas exemplos, a lista cresce a olhos vistos...

Torço tanto o nariz a literatura dita light, como torço a produtos super-eruditos nessa matéria. Ambos têm o direito de existir, mas nenhum deles me parece o caminho para a sedução futura. Se no meio disto tudo há uma constante, terá que ver com o facto das pessoas ainda gostarem de uma boa história – esperemos que no futuro não seja uma que seja contada por uma minoria e que fale de como em tempos pessoas e livros viviam apaixonados, até que por fim estes últimos morreram.

6 comentários:

  1. «Creio que a tarefa será cada vez mais difícil, diria até em modo especulação que entre os 25-35, malta com hábitos regulares de leitura de livros serão em média para aí 4 em cada 10.»

    não sei se acredito... acho que estás a ser optimista.

    quanto ao resto, tenho muitas perguntas e poucas respostas e apetecia-me discutir mil coisas, mas prefiro ler-te ;)

    (e muito obrigada pelo Senhora, acabaste de me aumentar 10 anos... pois...)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isso do senhora é simulacro de educação virtual. Não te fies em bandalhos com maneirismos ;)

      Eliminar
    2. sabes como são as mulheres :) perdem-se nas antíteses :b

      Eliminar
  2. Boas!
    Hoje, ao comer um Panna cotta :) também fiquei a pensar no tema. Tendo tido já uma ou duas coisas publicadas em papel e um pouco mais do que isso online, ainda acho que o papel se mostra com orgulho à mãezinha, enquanto o online gera, num dia bom, um encolher de ombros. Ainda não atravessámos o abismo do orgulho entre as duas formas de publicação. Um autor sonha sempre ver a sua grande obra enclausurada para todo o sempre nos calabouços da BN. Não há como contorná-lo.
    Hoje devo ter comprado uns dois livritos na Amazon (US), em versão electrónica. Podia ter comprado Os nossos editores andam a dormir quanto ao impacto que o electrónico pode ter, até que por cá chegue uma Amazon. Aí, ai Jesus. Muitos autores fazem (bem ou mal) a ultrapassagem ao sistema usando os sistemas de auto-edição da Amazon (e outras).
    O que está a surgir é o equivalente ao "single", a obra curta, o conto, algo que pode ser comprado por impulso, por 1 dólar ou 1 euro. Os tops da Amazon estão cheios destas obras. No meio disto, há lixo? Muito, muito lixo. Do sistema actual só saem pérolas? Hmmmm, não!
    E contudo, acredito que há público, leitores na nova geração, e que continuará a haver. Acho, suspeito, que esta geração não tem paciência para ler obras de grandes dimensões (embora o Harry Potter me desminta).
    Acredito, ainda acredito, que a chave para se continuar a ter leitores é a história mais do que os artifícios estilísticos, que ficam datados em cinco anos. Moby Dick continua a ser uma grande história, e por isso Melville é lido (poucos sabem, contudo, que escreveu muito mais).
    Tema vasto, que não cabe numa caixa de comentários apenas, mas que merece ser debatido.

    Boa noite!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muitos pontos válidos por aí, incluindo a sobremesa logo a abrir :)

      O facto é que as editoras se estão a adaptar ao online como boa parte das empresas o tem vindo a fazer. À bruta e remediando o que é necessário para continuarem em sintonia com a evolução do público, mas raras vezes vendo um passo mais à frente do que o necessário para resolver o imediato.

      Lixo existe tanto online, como offline. A vantagem do online é que é ecologicamente mais responsável :)

      Eu também acredito que parte da geração mais nova é capaz de ler volumes extensos, mas só se for conquistada de outra forma primeiro (no caso do Potter, do Game of Thrones, do Tolkien, via filmes/TV).

      E estamos completamente de acordo no foco na história, que muitas vezes suspeito leva para trás quando determinados autores se tentam afirmar literariamente, colando-se a moldes, referências ou, pior ainda, a pensar mais em como se distinguir do que em como contar uma boa história.

      Mea culpa melvilliana, para além do Moby Dick só me recordo de memória do Bartleby...

      Eliminar
  3. fica a sugestão (2ª)

    http://www.zedosbois.org/events/battle-of-ideas-eventos-satelite-2/

    abraço.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.