25.9.13

Batman e os trajes académicos




Batman olhou para o seu Bat-GPS. Tinha feito o caminho todo de Gotham até Lisboa sem grande demora, tirando aquela paragem para esticar as pernas e fazer um bat-xixizinho na estação de serviço de Arkham-de-Cima. Também já tinha dicas para estacionar onde não havia parquímetros junto à Cidade Universitária, mas preferiu deixar o carro num lugar pago, accionando a capa de invisibilidade. Era tão bom, ainda que ligeiramente perverso, ver os carros normais a amolgarem-se contra o que parecia um lugar vago... enfim privilégios de bat-humor negro.



O clima em Gotham nesta altura do ano já aconselha à migração para um clima mais quente e foi assim que, após uma curta pesquisa no Bat-TripAdvisor, descobriu uma vasta colónia de mini-batmans que em finais de Setembro começa a ser avistada em várias cidades de Portugal. Curioso e com dias de férias por usar, resolveu visitar esses seus primos afastados.



Ao passear pelo Jardim do Campo Grande viu logo um grupo deles e foi na sua direcção para os cumprimentar. Viu no entanto que estavam a combater o crime, conforme indicavam os dez ou vinte bandidos  de joelhos na relva à sua frente e que gritavam desalmadamente.

Já a dois passos deles verificou que entre os mini-batmans existiam homens e mulheres e que eram destemidos, já que não usavam máscara. Resolveu cumprimentá-los.

“Boa tarde parceiros, precisam de ajuda? Estes meliantes estão demasiado ruidosos”.

De repente fez-se silêncio e os bandidos ajoelhados calaram-se. O mini batman que tinha a capa mais artilhada com tuning de escudos virou-se para ele com ar surpreso.



“Caloiro, que merda é esta? De que curso és tu? Estás a gozar com a praxe??? Vinte de braços, jááá!”



Batman hesitou, seria uma brincadeira do Joker? Seriam amigos do Jim Carrey, a relembrar os velhos tempos de The Riddler? “Companheiro, não sei do que falas. Estou aqui de férias, mas na relaidade a luta contra o crime nunca tira férias. Que crime cometeu este aglomerado de escumalha que estão a punir?”



Todo o grupo de mini batmans o rodeou “Caloiro, estás a abusar. Eles estão a ser praxados e tu sabes muito bem que não devias estar de traje, quem pensas que és? Ainda por cima é um insulto à tradição académica de....”



O mini batman matulão não acabou a frase porque Batman pegou nele pela capa e enrolou-o como se de um enchido se tratasse. Em pânico, os outros mini batmans fugiram. Batman ponderou atirar-lhes uns quantos bat-grampos às ventas, mas o material estava caro e existiam questões mais importantes a resolver. Deu dois carolos no mini-batman enchido.



“Rapazola, explica-me lá que merda é esta, que crime cometeram aqueles totós ali e presta atenção, cada segundo de férias que eu considerar desperdiçado é um dentinho que salta da tua dentição definitiva”.



O mini batman matulão quase chorava “Nós somos estudantes, veteranos, eles são caloiros, têm que ser praxados para poderem ser um de nós, cumprindo rituais académicos que...”

“Ah, então aqui entrar para a universidade é sinónimo de crime? Pensei que, geralmente, era apenas sinónimo de desemprego...Mas, se tu és veterano, então és um criminoso veterano, é isso?”

“Não senhor, não sou, sou só estudante. Mas a praxe é um ritual...”

“Cala-te lá com rituais, parece que estou a ouvir o maluco do Scarecrow depois de fumar cenas estranhas. Porque é que te vestes estilo eu, vá desembucha?”

“É tradição, é-é-é uma espécie de uniforme, para mostrar que somos estudantes universitários, vem de tempos antigos...”

“Deixa-me ver aqui uma coisa na net sobre trajes...” Batman usou a sua Bat luva com wi-fi “Ouve lá meu palerma, não sera suposto o traje ser uma coisa que simbolizava a ausência de classes numa universidade, que vocês eram todos iguais depois de entrarem, sem ricos nem pobres, sem malta do campo nem da cidade?”

“Ah...pois...não vi bem...isso está na wiki ou estás a ver no Face?”

“Hmmm...jovem madraço, parece-me que nas vossas universidades há uns mais iguais que outros. Se estão a usar o traje como uniformes de enforcers, com praxes muito pouco formativas com base em rituais pouco criativos e um excesso de punições idiotas, só toleráveis se forem aceites de forma bem disposta e sem coerção, então se calhar vou ter de eu a praxar-vos”

“Senhor Batman, não percebi nada, agora parecia que tinha sido o senhor a fumar coisas estranhas...”

“Já calculava...vamos fazer um acordo. Vou deixar-te ir mas prometes-me que, se queres andar na rua a fazer de vigilante universitário, te vais esforçar por fazer uma praxe inteligente e divertida, que funcione como um reforço do sentimento de pertença à comunidade universitária, em vez de ser só pintar caloiros, sujá-los e fazê-los andar por aí a fazer figuras de parvos em manobras meio militares, meio ridículas?”

“Sim...prometo...prometo muito, mas posso adicioná-lo no Facebook para lhe colocar dúvidas se surgirem no processo?”



Batman deu-lhe um pontapé no cu como resposta e ficou a vê-lo desaparecer no horizonte em sprint. Ponderou se teria que ser ele o enforcer de mini batmans, levando-os no sentido certo como enforcers do espírito universitário. Mas foi então que se distraiu com uma bela freira que ia a passar, com ar de noviça rebelde e pensou que, estando de férias, se calhar devia era investir um pouco mais em maus hábitos e menos no seu vício de justiceiro. E preparou as suas bat pastilhas para o hálito...

5 comentários:

  1. Tão, mas tão bom! e por mim as praxes eram exterminadas.

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    1. Enquanto um acto voluntário, sem coerções abusivas, não sou contra, desde que constitua uma experiência em que o próprio caloiro tire alguma coisa positiva/divertida.

      O que me aborrece é ver trajes a serem usados estilo uniformes policiais e praxes que se resumem a vexar ou são exercícios de falta de criatividade com uma vaga desculpa de espírito académico.

      Quando fui caloiro não passei ao lado das praxes mas, mesmo não estando numa faculdade de grande tradição académica, sempre que achei que estavam a abusar ou a ir pelo caminho da estupidez não fui em cantigas e recusei-me a fazer o que quer que fosse desse estilo.

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