12.9.13

A mão que embala o cérebro



As férias têm em mim o efeito de uma guerra interior. É uma guerra diferente, em que todos ganham e todos perdem e em que “todos” sou eu.
O cérebro não quer saber o que está mal no país, porque o país raramente tem tempo para saber o que de mal se passa com o tipo que vive com ele. Não quer saber o que se passa no trabalho porque ele está a ser feito por quem lá está e, se não estiver, vai ser feito quando voltar e já não puder não querer saber. O que o cérebro quer é conduzir em velocidade de cruzeiro sem ter que pensar muito nos “ses” de estar a querer ser um cérebro que não pensa muito.

Se puder, o cérebro vai querer viver para além das suas possibilidades e deixar preocupações, necessidades racionais e confusões de parte, assim por uns belos dias. Depois, logo se vê.

O resto dos sentidos provocam o cérebro, porque as coisas que se vão vivendo despertam-no da letargia e sopram-lhe de levezinho outras vontades. Põem-no a pensar na melhor forma de descrever um dia perfeito sabendo de antemão que isso não existe para ser descrito, só vivido.
Levantam-lhe questões importantes, como a de saber o que o faz sentir o momento exacto em que um corpo quente mergulha na água fria e se atravessa uma onda.
À volta dele as conversas fluem, conversas de férias e de histórias que a rotina tantas vezes não consegue dispensar tempo de agenda. E ele quer absorver tudo, mas não quer ter trabalho nenhum, simplesmente deixar-se estar a prolongar momentos em que é passageiro e não condutor.

Mas ele, o cérebro, sabe que a sua guerra não é essa, a de aproveitar as férias, porque essa já está ganha. A sua guerra é com aquele que dele depende e a ele comanda, fazendo com que tudo flua em linhas, umas com mais sentido, outras sem sentido nenhum porque a escrita, antes de passar às mãos, é um conjunto de ideias que se alinham e desalinham, nem sempre conforme a vontade de quem as devia comandar.

A guerra é só uma palavra.
A batalha é decidir o que fazer com os outros milhares que, dentro do meu pensamento, exigem ser parte de um texto bem maior.

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