2.8.13

Rixa no bar de scones


Disseram-me que aquele bar era para duros, que não era daqueles spots para mariquinhas onde o álcool serve como desculpa para comportamentos e atitudes estranhas. Ali bebia-se chá e, se tivesses cabedal para isso, podias reforçá-los com scones.

Entrei a medo, o cheiro a laca não indiciava nada de bom e, por não confiar em puffs e cadeiras de verga, fui directo ao balcão. Ela sorriu-me, com o sorriso de quem já tinha visto muitos como eu e não estava impressionada, “O que vai ser?”, hesitei em pedir a carta de chás, porque um gajo que não sabe de rajada o chá que quer, não merece o chá que bebe.

“Darjeeling”, respondi, “oolong?” retorquiu, “ooshort é que não...” arrisquei a piada fácil, voltou-me as costas e percebi que ali o humor ficava lá fora. Voltou segundos depois, “Mais alguma coisa?”, cerrei os lábios antes de avançar “Scones, dois scones...”. Fez-se silêncio no bar, ouvi unhas envernizadas a tamborilar em mesas atrás de mim e alguém desligou o sistema de som onde se ouvia “Clair de lune”. Debruçou-se então no balcão, com uma postura desafiadora e disse “E os scones são com quê?”.

Sem me voltar, sentia as miras laser apontadas à minha cabeça. Era um momento crítico e não podia vacilar “Compota de morango e manteiga...se faz favor”, a expressão dela validou a minha escolha. A tensão aliviou e Debussy voltou aos nossos ouvidos e foi aí que adrenalina me traiu, pois antes de pensar já me estava a ouvir dizer “Misturar manteiga e compota no mesmo scone é o que toda a gente devia fazer”.

O que se passou a seguir é difícil de descrever em palavras. Atiraram-me chá à cara e calcaram-me os pés com bengalas, enquanto ouvia gritos que pareciam dizer “Ele que vá fazer misturas para o scone da mãe dele”, “Brincar com chá aqui não badameco”. Defendi-me como pude, ainda distribuí uma ou duas cabeçadas mas, quando boa parte dos nossos oponentes usa placa, a coisa é menos eficaz. Tentaram bloquear-me a saída com andarilhos e queques mais pequenos (crianças e não bolos), mas valeu-me a corrida e as pernas altas numa fuga pouco digna, mas essencial.

Rixas em bares de scones, não é coisa que deseje a ninguém.

2 comentários:

  1. ahah, as "velhinhas da avenida de roma" conseguem ser mortíferas

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  2. muito bom!... adorei a forma como descreveste toda a situação: vizualizei tudo :)

    Sónia

    www.bolas-desabao.blogspot.com

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