28.8.13

O perigo de andar a dar na fruta




As coisas estavam a correr tão bem. Estavam, digo bem.

Ela tinha saído há pouco tempo da clínica de desintoxicação de SMS, estava bem melhor do que quando entrou. Tinham-na deixado com uma dose certa e regrada 2/3 SMS por dia, fora situações de emergência e tinha ficado bem definido que nunca seria ela a determinar o que era ou não emergência.



Isso incluía updates nas redes e emails? Sim, incluía, pelo menos nos primeiros seis meses, até porque só aos poucos é que ela já conseguia encarar as pessoas por mais de um minuto sem os olhos fugirem rapidamente para o pequeno ecrã que segurava nas mãos.

Essa era outra, não podia andar sempre com o smartphone na mão, só quando em utilização directa. As desculpas de “não se ouve”, “estou à espera de um telefonema” já não funcionavam e aquilo era para o bem dela.



Tinha menos olheiras agora e, embora mais calma, ainda tinha aquele tique ligeiramente nervoso das pessoas que estão habituadas a um suporte extra para não se sentirem socialmente nuas. Dizia-me que já tinha mais conversas reais, com pessoas à sua frente e não atrás de um ecrã qualquer, parece que também tinha sido uma recomendação da clínica.



Mas foi então que me disse que precisava da minha ajuda para chegar ao próximo nível. Disse-lhe que sim, que podia contar comigo para o que fosse preciso, mas ela riu-se na minha cara. Quando lhe perguntei porque se ria, acusou-me de dizer sempre que sim, mas nunca lhe dar vidas, nem sequer uns movimentos extra, que às vezes lhe faziam tanta falta. E sim, já me tinha a fazer isso por outros, não adiantava negar.



Senti-me perdido, será que lhe tinham dado alguma cena marada na clínica? Foi então que sacou do smartphone e me mostrou o ecrã “Nível 208 do Candy Crush Saga. Mandei-te o ticket para desbloquear o episódio às oito da manhã e até agora, N-A-D-A”.



Foi então que percebi que as SMS já não eram O problema. Ela andava a dar na fruta e a dar-lhe em grande.


2 comentários:

  1. Então não lhe digas que mudar as horas no dispositivo faz milagres, senão aí está tudo perdido...

    ResponderEliminar
  2. E não querendo ser maçadora...aquilo não é fruta.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.