1.8.13

"Agenda para o apocalipse" - Primeiras páginas



“Acordei e a terceira guerra mundial já tinha começado, gritaria e confusão, juro que até vi fumo e ouvi alguém a contar os feridos. Contudo, sou uma pessoa de hábitos e o fim do mundo não é motivação suficiente para me fazer mudar. Indiferente à algazarra, estiquei braços e pernas, sentindo-os deslizar pelos lençóis e, sempre de olhos fechados, respirei fundo. Quando me preparava para passar à posição sentada, deslocando as pernas a um só tempo para a esquerda, sentindo o chão até encontrar os chinelos, rebentou a primeira bomba.

Ao abrir os olhos lá estava ela, parada à minha frente, cerca de um metro e qualquer coisa de altura, que a precisão não é o meu forte quando acabo de acordar. Dois totós, num cabelo castanho dourado e olhos bem abertos, tal como os do gato que tinha na sua camisola e a estender-me a sua mãozinha, ao mesmo tempo que berrava naquela voz aguda de criança, com aquele timbre que faz os cães fugirem:

-        Bom bia, Bom bia, Bom bia. Já acordaste? Faches o pequenalmoço, faches?

Quando dei por mim, já era conduzido rumo à porta do quarto - curioso a janela não estava no mesmo sítio do costume e, ao passar a porta rumo a um corredor que ainda me parecia enevoado, cometi mais um erro – pisei uma mina.

Nunca tinha pisado uma mina assim, porque a dor estava focada no tornozelo, mas eu ainda conseguia sentir as pernas. Os gritos aumentaram.

-        Sai da frente, sai da frente, ueóóóóóóóóóóóóóóónnnnnnnnnnn.

Tinha sido atingido por um skate, conduzido por um pirata, ou então era só um puto com uma pala num olho e óculos. Nem parou, deu-me uma pisadela, pegou no skate e lá seguiu corredor fora. Curioso, não me lembrava do corredor ser tão comprido. A mãozinha que segurava na minha continuava a puxar por mim, que a coxear era agora mais lento. A vozinha continuava “Bom bia, bom bia, é hora do pequenalmoço”. Chegámos à cozinha.

Ela estava junto à janela, que estava toda aberta, deixando entrar a luz, que já era muita. Curioso, não me lembrava de alguma vez a ter visto fumar junto à janela da cozinha. Era bonita, mas já tinha  aqueles sinais que começamos a mostrar quando já tratamos a vida por tu há algum tempo. No entanto, mesmo na sua versão mais simples, túnica solta, cabelo apanhado e sem a camuflagem a que alguns chamam maquilhagem, tinha um encanto natural que lhe permitia disfarçar feridas de guerra.

Foi então que caiu mais uma bomba.

-        Ricas horas – a sua voz, por sua vez, não escondia o desgaste – os miúdos já estão acordados.

Achei melhor responder – Pois, já dei por isso. A resposta dela saiu de rajada – E o que vais fazer para te redimires, preparar o pequeno almoço? – A mãozinha que ainda não tinha largado a minha apertou-me com mais força ao ouvir a palavra.

Curioso, não me lembrava do nome dela e o cigarro que estava a fumar estava quase no fim. Já não tinha muito tempo para perceber onde estava, que era aquela gente e como tinha ido ali parar. Bela forma de começar o último dia antes do apocalipse.”

Brevemente, na parte de trás das prateleiras - Josué Macário “Agenda para o apocalipse”

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