26.8.13

A aspirina da conversa de chacha


A resposta a qualquer pergunta com um semi lamentoso, semi estóico “Vai-se andando”, para mim é quase o equivalente a mandar alguém à merda. Prefiro mil vezes que me digam “Epá, não quero falar sobre isso”, “Queres mesmo saber ou é conversa de encher chouriços?” ou até “Não estou mal, mas a verdade é que estava bem melhor antes dessa pergunta”, do que esse batido defensivo de mofo dialogante.

“Vai-se andando” é a receita tipicamente portuguesa de quem não gosta de dizer que está bem, mas acha que dizer que está mal o transforma num queixinhas. Assim, perante alguém com o qual possa não haver muita confiança ou vontade de falar, “Vai-se andando” é a aspirina que resolve. Admito que haja quem pergunte como estamos só para fazer conversa, mas o “vai-se andando” é um reles conforto enquanto resposta, com tanta coisa gira que pode ser dita, sem dizer nada.

Só que o português genérico gosta de temperar com sofrimento algumas nuances do seu diálogo, para que nunca ninguém possa ter certezas absolutas sobre o seu estado de espírito quando tal não lhe seja conveniente.

Isso não me agrada porque só pergunto a alguém como está, quando tenho realmente interesse em sabê-lo, caso contrário tenho léxico suficiente para tornar o diálogo mais ligeiro e pouco profundo. Portanto, se me dizem “vai-se andando”, a minha vontade é logo de me pôr a andar.

Acreditem, “vai-se andando” não é um bom teaser, nem sequer um pedido de ajuda encoberto, é uma massa pastosa que não sabe a nada e eu dispenso ter que comer com isso.

O mundo vive bem sem conversa de chacha, nós é que às vezes temos medo de perceber que a coisa funciona sem ela.

7 comentários:

  1. É por isso que digo "vou indo". E apesar de ficar mal, ser chato... muitas vezes é verdade, logo tudo o que se pode dizer.

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    1. O gerúndio é sempre um auxiliar do empastelanço mas, como disse, é uma cordial defesa pessoal.

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  2. Eu cá até aprecio muito uma boa conversa de chacha, acho fascinante como em alguns momentos da nossa vida temos a capacidade de falar tanto sem dizer nada e quer queiramos quer não são incontornáveis em alguns momentos da nossa vida. Quer seja para o nosso chefe acreditar que não somos um bicho anti social, quer para meter conversa com aquela pessoa com quem nos cruzamos todos os dias, quer no consultório médico quando alguém está a ver partes de nós que nós próprios desconhecemos há sempre um “Então e este calor?” à mão pronto a servir os mais incautos.
    Já um “Como estás?” mete-me nojo e, a não ser as raras vezes em que tenho real interesse em responder sinceramente, mando quem me pergunta à merda com um “Vai-se andando”.

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    1. Mas eu só pergunto "Como estás?" quando realmente me interessa a resposta. Caso contrário converseta da tanga all the way, enquanto manual de sobrevivência social.

      Agora se eu me interesso e alguém não se interessa por responder, prefiro que em vez do "Vai-se andando" me dê uma pista mais criativa sobre o facto de não lhe apetecer falar. Caso contrário, é chapa quatro e põe-te a andar.

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  3. Quando realmente te interessa a resposta é porque te interessa a pessoa e, na maioria das vezes, conheces o suficiente dela para teres outra intenção por detrás desse inocente "Como estás?" e aí porque não ir diretamente ao cerne da questão em vez de andar a apalpar terreno?
    Mas atenção, até compreendo perfeitamente ao que te referes, só me partiu o coração ver a conversa de chacha tão maltratada. Apenas isso.

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    1. Compreendo, mas o "apalpar do terreno" tem que ver com o facto de, apesar de haver alguma proximidade, nem sempre essa pessoa poder estar disposta a conversar. E, nesse caso, mais do que um "vai-se andando", um "Nada bem, mas falamos depois" ou por aí.

      E eu tenho da conversa de chacha, a opinião que pode ser como por exemplo, o mar. Pode ser uma coisa maravilhosa mas também para morrer afogado nela :)

      Mas, estou plenamente ciente que opiniões divergentes não são necessariamente opinião erradas.

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  4. Como disse, na sua essência compreendo o que queres transmitir, mas tal como a ti um “Vai-se andando” te faz comichão a mim um “Como estás?”, quando claramente algo não está bem, me dá uma urticária do caraças.

    Prefiro um direto “Andas com um humor que ninguém te aguenta, ou desabafas ou resolves isso, que há problemas mais graves no mundo e eu ainda não almocei” adequado à proximidade que temos com a pessoa e/ou tipo de problema com que nos deparamos. Algo mais terra a terra que transmita “O teu mal estar está-me a deixar incomodado porque sou teu amigo e me preocupo contigo”. Se a pessoa quiser desabafar há de fazê-lo, senão um “Quando precisares, estarei aqui” pelo menos limpa o ar.

    O “Como estás?” soa-me sempre a conversa de circunstância e raramente me dá vontade de desenvolver seja que tipo de conversa for, venha a pergunta de quem vier.
    Talvez seja coisa de “gaja”.

    Um grande bem-haja por esta troca de palavras :)

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