28.8.13

27kms sobre o meu passado


Domingo passado fiz uma corrida de três horas por alguns sítios de Lisboa que estão ligados à minha história. Minto. Ia fazer uma corrida de três horas, acabei por correr “apenas” 2h40m, pois enganei-me algures pelo percurso pelos trilhos de Monsanto (e sim, podia haver aqui uma piada subjacente entre o meu passado e Monsanto mas não, houve apenas uma desorientação momentânea).



Tendo em conta que actualmente tenho de cruzar boa parte da cidade para voltar à zona onde cresci, optei por fazê-lo em corta-mato, porque o que a memória nos dá em alento para mais uns kms, as pernas lá para a frente reclamam. Ainda assim, arranquei perto das 18.30, para garantir tempo mais fresco e com a noção que já ia acabar de noite



A reportagem fotográfica possível, não respeita a ordem cronológica, mas sim a ordem do percurso.



Bairro Azul, a última paragem





Apesar de ser a primeira foto, este Bairro é uma última paragem porque quando saí da casa em que vivi nesta rua, deixei para trás o “viver em casa dos pais” e isso é sempre um marco importante. Com os sons de oração na mesquita no ar, rumei então a Monsanto, via Sete Rios.



No topo de Monsanto






Para quem cresce na zona ocidental da cidade, Monsanto é uma referência muito próxima. Fosse pelo parque do Alvito em miúdo ou, mais tarde, pelas aulas de condução que invariavelmente passavam por ali, a verdade é que cresci mesmo ali ao lado. E hoje em dia, quando vou correr para essa zona, continuo a sentir uma espécie de calma interior que Monsanto parece ajudar a passar. É claro que, cinco minutos depois estou a reclamar que aquilo é só sobe e desce, mato e mais mato e que a sinalização é quase nula, incluindo ao pé do Keil do Amaral.



O rio, com a ponte ali ao lado





Na casa onde cresci, mais precisamente da janela da cozinha, podia ver-se o rio, a ponte e o Cristo-Rei. O ângulo não era bem este, mas foi suficiente para me lembrar das vezes que preferia ficar a comer na mesa da cozinha, a olhar lá para fora, especialmente em dias de tempestade, sempre à espera de ver relâmpagos.



Mais que um clube, um amigo





Sou adepto do Belenenses mas, por questões logísticas quis o destino (e a ajuda de um tio) que passasse quase dez anos a representar o Atlético e as suas equipas de basket, dividindo em parte o coração clubístico. Da adolescência à idade adulta, 5 a 6 vezes por semana, todas as épocas lá rumava eu à Tapadinha e, por tudo aquilo que possa ter sacrificado, voltaria a fazê-lo de novo. A minha mãe às vezes pergunta-me “o que é que o basket te deu para além de mazelas?”. A resposta é tão longa que dava para um ensaio.



A brevidade da Preparatória





Com um portão bem mais moderno do que na altura, esta é a entrada da minha antiga escola preparatória. Na altura a sua escolha não foi pacífica, eu queria ir para outra, onde quase todos os meus amigos da primária iam andar, mas a proximidade de familiares ajudou à decisão familiar noutro sentido. É uma escola gigante em termos de área, com recantos bem escondidos, onde se pode fazer muita coisa extra curricular de nível artístico. Mas, com o portão encerrado, não há razão para abrir certas portas.



Satisfação primária





Escola nº60, onde tudo começou. A satisfação de ver que esta escola ainda existe, com pintura cuidada e ar funcional, deixou-me alegre quase ao ponto de nem sequer me lembrar que a corrida ainda ia a meio. E a satisfação redobrou quando a deixei, a caminho da minha antiga rua, exactamente pelo caminho que fazia quando saía das aulas e seguia para casa.



O palácio





Pequena paragem, para lavar a vista com o Palácio que tanta gente só descobriu com recheio Joana Vasconcelos. Era visita regular de quem vivia e estudava na zona como eu e sempre me fez impressão como é que, visto do lado da Calçada da Ajuda tinha sempre aquela fachada destruída pelo incêndio, que contrasta e tanto com esta visão imponente.



A minha rua





O alcatrão não era deste nível, mas era suficiente para jogar à bola, quando o torneio não era nos passeios, para arrelia dos vizinhos do rés do chão. De um lado os prédios como o meu, do outro as casas rasteiras, no meio os miúdos, os encontros na esquina até às tantas e o ponto de partida para tanto episódio e história rocambolesca. Eu mudei, o bairro mudou, a nossa vivência juntos hoje em dia não me parece fazer sentido, mas o facto é que aproveitei ao máximo tudo aquilo que me deu na altura certa e isso nunca vai mudar.



O principal da Secundária



Não me podia ter divertido mais na Escola Secundária, mais precisamente numa escola em que tantos torciam o nariz quando sabiam que lá andavas. Pelo meio de mitras, alguns bandidos e boa gente, passei lá bons tempos, crescendo com aqueles ingredientes certos que incluem "fazer merda e aprender com isso" como ingrediente básico de adolescente. Do ponto de vista educacional podem ter havido falhas, mas creio que elas estavam lá para podermos tropeçar nas coisas e perceber que, por vezes, as imperfeições ajudam a saborear as coisas.

A universidade deluxe





Descendo até à Junqueira, com a noite cada vez mais perto, ocorreu-me a proximidade evidente entre pontos centrais da minha vida enquanto crescia. Tudo nunca distou mais de 20 minutos de casa, mas creio que só agora vejo isso dessa maneira. Inclusive ao olhar para o Palácio Burnay, onde tirei o curso, penso que quando a universidade foi deslocada dali, foi ainda para mais perto de onde cresci, apesar de aí já só ter uma relação residual com ela.

Tirei o curso num palácio e pronto. Lá dentro não foram só contos de fadas, mas a verdade é que o ambiente não tem paralelo ao que hoje se encontra na mesma instituição que vive noutro sítio. Foi o sítio certo para o momento exacto na minha vida.



Belém ao anoitecer






Da universidade ao rio é um pulinho e a zona ribeirinha de Belém-Alcântara também me diz muito. Regabofe com os amigos, escapadelas com as miúdas, às vezes reflexão a sós e um zumbido na ponte que a muita gente faz confusão mas a mim me dá a sensação de proximidade de casa. Só que, nos dias que correm, ainda faltava um bocado para casa e duas horas de corrida já pesavam no lombo.





A Baixa





Contava chegar ao Cais das Colunas ao anoitecer, sentar-me um pouco nos degraus e deixar a noite cair, se o percurso tivesse batido certo. Mas não bateu, já era de noite e os camones fervilhavam na zona. Ficou só a foto tremida do artista já tremido, optando por fazer os kms finais através da animação da rua Augusta, do Rossio, Praça da Figueira e Martim Moniz. Era o centro da cidade, talvez não o centro da minha história, mas era bonito o paralelismo. Bonito também era o facto de ter o passe comigo e, sem vergonha, fazer umas estações de metro em regime de turista, que já estávamos perto das dez e o corpo não ia levar a mal se lhe poupasse a subida da Almirante Reis.





Faltam aqui muitas partes da história mas, em não me faltando partes a mim, sobrará tempo e percursos para unir kms e passado, sempre que a nostalgia me deixar para aí virado.

6 comentários:

  1. Gostava de fazer algo do género.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

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    1. É avançar sem medo, nem que seja por etapas :)

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  2. Uma visita guiada pela tua Lisboa :)
    Eu só faria algo assim de bike, que as pernas nao conseguem correr o meu passado, mesmo tendo crescido numa cidade bem mais pequena.

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    1. Isto também é só uma amostra, com a sorte adicional que uma boa parte destes locais é relativamente próxima. Chegar lá e voltar de lá é que é um bocadinho mais puxado.

      Mas, seja de bicicleta, a correr ou até a andar, quando nos apetece é ir...

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    2. Posso fazer isso na cidade adoptiva antes que a neve venha e não haja chão nem relva durante meio ano.
      Exageros meteorológicos à parte, fiquei com vontade de fazer um passeio com significado pessoal ao estilo do teu... Mas a passo.

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  3. (Este comentário é para ser interpretado de forma positiva) Tu fazes coisas estranhas, mas bonitas! :)
    Scheimit

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