16.7.13

Para sermos barões trepadores, faltam-nos árvores para querer subir





Fã do Calvino em geral, gosto desta obra em particular. Gosto de Cosimo, gosto do facto dele se ter recusado a viver sob as regras dos outros e ter criado a sua própria realidade, indo viver para cima das árvores numa vivência que desafiava a realidade dos que o rodeiam, convidando-os ao mesmo tempo a fazerem parte dela.

Na vida real, nem todos se podem dar ao luxo (ou a força de vontade necessária) de criar a sua própria realidade e ditar as suas próprias regras mas, o que é preocupante, é que muitas vezes vejo gente à minha volta que já nem árvores tem para querer subir.

Entre as árvores da família, do emprego, dos estudos, dos filhos, da casa e do carro, cresce uma erva que é a rotina. Essa erva é benéfica para criar algum equilíbrio nessas árvores que são fundamentais para uma vasta maioria só que, quando cresce de forma selvagem, a rotina rapidamente gera como fruto a preguiça e o conformismo. E de repente, sem darmos por isso, estamos atados às poucas árvores que nos restam e não vemos a necessidade de ir para além disso.

Não tem que ser a árvore de subir ao Everest ou ser campeão olímpico de badmington, não tem sequer que ser a árvore de realizar um filme ou desenvolver a cura para o cancro. Têm apenas que ser a árvores ou as árvores necessárias para continuarmos a cuidar do nosso bosque, de pura e simplesmente não perdermos a curiosidade de descobrir mais árvores e alimentar o sonho de como seria bom trepar aquela árvore e saber como seria viver lá em cima.

O problema é que, por muito que os outros queiram ajudar, teremos que ser sempre nós a plantar as árvores a que um dia podemos querer ou não subir. Viver pelos sonhos e pela realidade dos outros nunca deu bom resultado.

4 comentários:

  1. eu sempre gostei muito do se num dia de inverno um viajante (arrisco dizer que a primeira página desse livro é uma das minhas primeiras páginas favoritas). quem gosta muito do barão trepador lá em casa é o ser de género masculino. acho que também lhe agrada essa ideia de que se pode ser livre e viver "nas copas das árvores" como crianças brincando

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    1. O "Se numa noite de Inverno um viajante" é um exercício fenomenal, mas é facilmente um livro que se odeia se não se entrar no espírito da coisa. Na trilogia "Os nossos antepassados", gosto dos três mas, como referi o barão se calhar tem a ver mais com o meu imaginário peterpânico :)

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  2. Mak,

    Este é um dos meus preferidos também, embora não seja "o" meu livro de Calvino.

    Todos temos a nossa árvore, em maior ou em menor grau, e alguns vão mudando de árvore ao longo dos anos. E por vezes pergunto-me se é pior o destino dos que se prendem no topo da sua própria árvore sem evoluirem nem mudarem se o dos que se prendem cá em baixo, demasiado ocupados com os outros para ter uma árvore sua. E se isso não é, à sua maneira, uma escolha também, por mais que digam que abdicaram de a fazer...

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    1. Eu sou fã do senhor e acho que, mesmo naqueles livros mais "pequenos" o modo como ele experimentava formas diferentes de contar histórias sempre me fascinou.

      O problema entre árvores e pessoas é quase sempre o equilíbrio. Entre os que desistiram de descer e os que desistiram de subir, confunde-se conformismo ou ilusão com equilíbrio...

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