15.7.13

Ó tu que filmas os concertos a que vais



Desculpa que te diga, mas não és muito esperto. Eu compreendo que tires fotos com os teus amigos, que apareças em destaque com o palco ao fundo e depois isso apareça a bombar nas redes sociais. Faz parte da cultura de hoje, em que não basta estar é preciso mostrar que se está.



Posso até compreender que filmes um excerto da tua música favorita, do teu momento de êxtase em que o vocalista da banda YXZ parecia mesmo que só estava a olhar para ti. No entanto, segundo este gráfico, é aqui que estamos e tu estás a servir para comprovar isso mesmo.





Pensei que era exagero, mas ontem vi-te a filmar o concerto com o teu iPad. Bracinhos esticados, cabecita ao alto, para ver se estavas a filmar o palco ou a pessoa à tua frente que, igualmente com os bracitos esticados, filmava com o seu iPhone. E isso, é burrice.

Não vou colocar a questão do preço dos bilhetes, mas estás ali porque queres ver um espectáculo ao vivo e estás a vê-lo através da tua filmagem. Passas músicas e músicas a olhar para o que ninguém (nem mesmo tu) vai voltar a ver com o mesmo entusiasmo (ou com algum entusiasmo que seja), em vez de veres aquilo que não se vai repetir, pelo menos daquela forma.


Jovem, esses vídeos, parte deles vão dar posts que toda a gente que fizer like não vai ver, outros vão ser batidos aos pontos no Youtube por vídeos com mais qualidade, especialmente quando se tratam de festivais que têm cobertura televisiva e finalmente, 90% deles vão parar ao buraco negro cibernético de discos rígidos e discos externos em que hoje vivem boa parte dos sez de veres aquilo que ner se es, etc. Sobrevivem em horas de nostalgia e pouco mais.seja), em vez de veres aquilo que ner senossos momentos de férias, festas, concertos, jantares, etc. Nunca mais ninguém os vê, tirando em ataques súbitos de nostalgia.



Por isso, para a próxima, tira algumas fotos, bate algumas palmas e baixa os bracitos ao apreciares o concerto. Vais ver que aproveitas mais e, se não acreditas em mim, vê o que diz o senhor Louis CK e pode ser que a coisa faça mais sentido.


23 comentários:

  1. Isso é válido também para as férias. Muitas dos sítios, paisagens, lugares, só fazem sentido vê-las em fotografia se se ligarem a memórias vividas. Mas é difícil ver (e viver) alguma coisa quando se anda sempre de máquina em punho. A imagem por si, vale pouco, a não ser para aqueles que realmente têm jeito para fotografia (0,0001%).

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    1. Ui, se entrarmos na vaga de fotógrafos de renome que agora surge através de cada dono de uma máquina fotográfica de boa capacidade (e são muitas), isso dá todo um novo post.

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    1. O pior é que dá sempre para piorar ;)

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    2. o que escreveste foi o que senti nos Depeche Mode. tal e qual. perdeu-se o essencial, aproveitar a musica e a companhia. estão todos mais preocupados em fazer gravações sem qq qualidade.

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  3. Ainda não tinhamos ipads e já o meu pai tinha concluído que andava a perder todos as festas da escola da minha irmã mais nova, escondido atrás da Câmara de Filmar, que na altura era gigante. Nunca ninguém revê esses filmes... e ele ainda não sabe se era a minha irmã ou a miúda da frente que tropeçava nas sapatilhas.

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    1. E ele ainda guarda as cassetes ou já tentou o pós-modernismo que é convertê-las para dvd e por aí em diante. Fica a meio caminho entre o giro e o trágico...

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  4. Como antigo proprietário de muitas cassetes pirata (vulgo bootlegs) de horrível qualidade, mas enorme mística, não julgarei estas pessoas de forma precipitada. Desde que não se ponham à minha frente com os seus ipads estúpidos, claro.

    só acho idiota filmarem em modo retrato, é que toda a gente sabe que o modo panorâmico é muito mais eficaz em termos de enquadramento e captação de imagem.

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    1. Mesmo no formato cassete, tu não vias o concerto através do leitor. Eu também já experimentei gravar som no telemóvel num concerto, tentando criar a base de um toque fantástico só para perceber que esse toque só resulta como homenagem ao Poltergeist.

      Ainda assim, não resisto à tentação de julgar alguém (como disse, não que filme 1 minuto ou 2, mas sim 10 em cada 15 de concerto) que se expõe ao ridículo daquela forma (sem ter a noção) e passe ao lado do essencial - o espectáculo ao vivo.

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    2. eu gosto sempre mais de insultar do que julgar. :)

      A questão é que já encontrei vídeos incríveis no youtube, de bandas que gosto a tocar coisas raras e inéditas (tipo os King of Convenience a cantar o Waiting in Vain), de que só tive acesso porque algum "anormal" que estava a ver o conceto passou 5 minutos a filmar. Eu não sei se o gajo gostou menos ou mais da música por isso (como também não sei se alguém que vai comprar uma cerveja a meio de um concerto está a deitar dinheiro fora, ou se o facto de ter visto concertos com 5 ganzas em cima me fizeram perder a "experiência total") mas ainda bem que esse vídeo apareceu.

      Claro que um gajo que filma com a câmara de um ipad ao alto, sobretudo se for ipad 1 ou 2 com as suas camaras nojentas, e´um anormal (insultos, sempre).

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    3. Eu percebo isso, se não houvesse já Sic Radical, apesar de ter lá estado (com o outro tipo por vezes infesta este tasco), teria pena de não reviver a intro desta faixa - https://www.youtube.com/watch?v=Ym2s4D4Mm-c

      Mas eu diria que a existência dessa "nata" do vídeo ocasional é uma excepção face a 98% das gravações existentes em concertos que são, basicamente, lixo que se perderá para sempre.

      E se formos a falar de motivações ou comportamentos, abrimos mais um baú (hoje em dia as pessoas gravam porque procuram pérolas e tesouros musiciais, porque podem ou porque querem partilhar?).

      Para além de também saber insultar como ninguém, sou um egoísta de primeira. Um concerto, mesmo que esteja completamente alienado, é para viver no momento e com quem lá está. O resto logo se vê.

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    4. antes que isto descambe comigo a ser catalogado de "defensor dos videografos amadoremente estupidos de concerto" e linchado em praça publica, com direito a video no youtube, eu concordo com todos esses 98%, e com a experiência do post (ipad...) só ressalvei o "precipitado" porque me lembrei dos gajos que ficavam todo o concerto preocupados com o seu elaborado setup de gravação do concerto (para ter, pelo menos, um "Audience B+" nas classificações de bootlegs).

      Foi um arremedo nostálgico. Também já fui ,em tempos, um fanboy extremo, e consigo imaginar que um fanboy extremo nos tempos que correm, se possa sentir, por vezes, dividido entre o momento e o registo do momento, e acabando tudo por correr bem. Mas, de facto, não são a maioria.

      Já o Zapruder não sei o que terá sentido.

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    5. Um gajo que filma paradas presidenciais sujeita-se sempre aos piores sentimentos...

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  5. o que eu julgo não é a futura utilização dos vídeos, é a estupidez de alguém não estar a aproveitar o espectaculo na altura em que o está a viver. é ridículo.

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    1. Eu acho totó tanto uma como outra, com a agravante na que mencionas.

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  6. Como diriam os Depeche Mode, "I feel you". É viver através de uma lente isso faz aflição.
    Acho sempre triste ver um mar de telefones, cameras e afins quando o que as pessoas deviam estar a fazer era a aproveitar o momento e não a tentar captar tudo para recordar mais tarde (caso fique alguma coisa de jeito). O mesmo se aplica para as toneladas de fotos que as pessoas tiram a tudo e em todo o lado... Mas isso sou eu e cada um saberá de si.

    Sara

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    1. É um bocado o oposto do culto do imediatismo que também vivemos, mas que porventura só ganha sentido na perspectiva de necessidade de partilha do que fazes, etc (na versão exagerada)...

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  7. Não sei se o Ipad.pod.payed funcionaria muito bem em concertos de outros géneros musicais... Não me refiro à ualidade da imagem mas da integridade do aparelho :)

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    1. A preocupação com a integridade do aparelho poderá ser paralela ao esforço dispendido na aquisição do mesmo...

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  8. Obrigado por me dizerem como é que devo viver um concerto e se devo ou não gravar merdas que me apetece gravar!

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    1. Entende isto como uma sugestão ou como uma perspectiva diferente, que te pode ou não fazer sentido.

      Se interessar, porreiro, se não te interessar, não é o apocalipse. Poderás continuar exactamente a ver os concertos como bem entenderes e a filmar, gravar, reproduzir em serigrafia no decorrer dos mesmos, se isso te apetecer.

      No entanto, tal como tu és livre de o fazer eu sou livre de opinar sobre essa forma particular de apreciar as coisas, neste caso tendo ambos o bónus de não termos o constrangimento de qualquer ligação familiar ou amistosa.

      Assim, quando tu vires o concerto como bem entenderes e eu opinar sobre a forma como certas pessoas apreciam espectáculos, depois podemos discordar um do outro sem paninhos quentes, num qualquer suporte virtual como este. A vantagem, digo eu, é que ninguém vai estar a filmar este espectáculo.

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  9. Um concerto ao vivo é sobre sentir... sentir os sons, as luzes, os saltos e "moches" (se aplicável). Penso que se perde muito com a preocupação da filmagem... E, honestamente, eu ensandeço se passar o concerto a desviar-me do IPAD do "vizinho" da frente que está a filmar o concerto TODO

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