9.7.13

O elogio do português, esse poliglota



Já sei, somos todos entendidos em línguas e poucos são aqueles que rejeitam o desafio de dar cartas noutro idioma, em situação informal (sim, porque quando o caso é formal, a história é outra).

Na verdade, somos uns privilegiados face a outros países, em termos de capacidades linguísticas, e sou da opinião que na base disso está o facto de nos escaparmos à praga das dobragens. Por exemplo, este senhor, que faleceu este ano, era o Terminator, o Darth Vader e o Clint Eastwood em Espanha. Pelo menos a voz dos mesmos e, por aqui, pode ver-se a base daquela gente ter sérios problemas com línguas.



Em suma, lidar com o inglês (o francês ficou semi-parado após a geração anterior) desde pequenitos, ajudou-nos a ler e falar melhor à medida que crescemos. Obviamente, há malta que não se encaixa no padrão e recordo sempre com carinho uma colega minha que no 12º ano, na disciplina de inglês, se tentou justificar pela não entrega de um trabalho na língua de Shakespeare, a única aceite, dentro da sala:

“When i waiting in the paragem i read the fotocópias...”

Essa é a nossa segunda vantagem, porque em clima informal, o que não sabemos inventamos e completamos da maneira que nos é mais confortável. É comum em inglês, ainda mais comum na nossa longa relação com o castelhano (portunhol clássico). Em francês também já tentei, mas não consigo, porque mentalmente fico a pensar cinco minutos nas palavras que tenho que usar para compor uma frase de resposta. Nas outras é automático.

Apesar de achar (como quase todo o português versado) que o meu inglês é imaculado e que me desenrasco bem no castelhano, o meu grande clássico tiro nos pés deu-se no México. Mak, cidadão viajado, depois de trepar a Chichen Itza e a uns quantos bares menos memoráveis na Riviera Maya, resolve trazer para a pátria uma garrafa de mezcal. Vai a uma garrafeira que lhe foi recomendada e leva um amigo, esse sim de créditos firmados no idioma local.

Cena 1: Amigo pergunta a Mak se quer que ele peça a garrafa e diga que é para embrulhar.
Cena 2: Mak faz cara de ofendido e diz que ele próprio faz isso.
Cena 3: Mak começa bem “Hola buenos dias, queria una botella de mezcal”

O gajo diz que sim e pega em duas ou três, dizendo preços. Mak faz a escolha do conhecedor (ou seja, não vai pela mais barata, mas foge das mais caras) e faz um pedido de que cedo se arrependerá:

“Me puedes hacer un embrujo...”

Cena 4: Silêncio na loja, amigo de Mak deita as mãos à cabeça, gajo do balcão desata a rir, gaja a repor garrafas também. Gajo do balcão responde:

“Por supuesto que si, pero un embrujo de qué? De amor, de suerte, de fortuna?”

Cena 5: Risota continua, Mak acabrunhado percebe que acabou de pedir um feitiço em vez de um embrulho. Faz sinal ao amigo, que lá pede para “envolver” a cena e até sair, Mak torna-se alvo de várias piadolas. Na realidade, até hoje, perante esse amigo e garrafas de álcool, Mak continua a ter que ter costas largas.


Juro que aprendi a lição mas, ainda assim, muitas vezes continuo a arriscar em castelhano (em inglês sou mais pro). Devo ter sido embrulhado nesse dia.


PS – Este post não respeita o novo acordo ortográfico português, nem o espanhol (seja ele antigo ou novo).

3 comentários:

  1. eu devo ter 2 ou 3 "encostos", mas não confio nas velhas que dizem que resolvem isso. só mesmo na fogueira é que esta treta sai.

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  2. Sabes que os turistas quando vêm cá adoram que lhes respondam na sua língua materna... Tive um piqueno na Minha Guerra que falava TODAS as línguas que queria, porque lhes estudava a musicalidade que posteriormente imprimia às suas conversas, cheias de calinadas, mas os turistas adoravam, e era sem dúvida o piqueno mais popular e procurado , quando até o seu Inglês era pobrezinho :):)

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  3. Tenho para mim que portunhol é a mais perigosa pelo número de palavras comuns a ambas as línguas mas cujos significados variam conforme o lado da fronteira.
    No meu 1o ano em Berlin, morei com 1 espanhola que falava tao bem ingles como eu alemao, a modos que, comunicavamos em portunhol avancado. Foram 9 meses de gralhas épicas :)
    No entanto continuo a gostar de saladas de línguas com 4 ou 5 estrangeiros em amena cavaqueira num café entre traducoes suspeitas, mímica e cerveja.

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