31.7.13

Na esquina, entre a rua das mulheres e a dos livros




Firmino era um observador mas, dada a matéria sensível da sua observação, a discrição era algo que cultivava, pois se havia coisa que não queria era ser tomado por tarado.



Duas eram as coisas que Firmino gostava de observar mas, antes de mais, faça-se aqui uma pausa para que não se retire do seu nome a ilação de qualquer toque rural ou desdém. Um homem, independentemente dos seus gostos, não escolhe o nome com que nasce ou o tipo de humor perverso que povoa a cabeça de alguns pais na altura de dar nome ao seu filho.



Mulheres e livros, eram esses os dois focos da observação de Firmino, mas esta observação tinha as suas particularidades, pois gostava de observar a forma como os dois universos se conjugavam na rua. Para esse efeito, escolhia uma esquina movimentada, na zona central da cidade e lá ficava o dia inteiro, bem aprumado para que não o confundissem com qualquer indigente e discreto o suficiente para que não levantasse suspeitas.



Mais do que belezas cultas ou belas obras, a Firmino interessava a relação entre formas. E havia muito a dizer sobre a relação física entre mulheres e livros. Havia as que agarravam o livro com força, junto ao coração, como se este valesse mais que a carteira. Havia também as que o usavam como acessório, a peça que faltava para completar o seu look e as que optavam pelo contraste entre um visual descontraído e a preocupação de sobrepor uma capa protectora ao objecto da sua leitura. Não faltava também quem andasse e lesse ao mesmo tempo, consumida pela obra, sem tempo para grandes toilettes. Às vezes a obra escondia-se na ponta da mala ou de um saco, deixando entrever pouco mais que um decote ponderado faria, noutros casos o cigarro numa mão completava o dedo a marcar o capítulo na outra. Chegara até a ver livros que as mulheres usavam como muro através do qual espreitavam para os homens na sua companhia. Firmino poderia ter escrito um livro sobre isso se quisesse, mas nunca o fez, essencialmente por ter medo de ver uma mulher a pegar-lhe com o desprezo de um qualquer gratuito à espera do próximo encontro com um caixote do lixo.



A trágica nota final é que Firmino morreu ontem, aos 38 anos, na mesma esquina onde passava dias a fio. Foi vítima de um condutor distraído, que perdeu o controlo do carro nas curvas de uma morena de vestido curto estampado. E ironicamente assim se estampou, levando Firmino à frente, não sem que este pensasse segundos antes de seguir viagem para outras esquinas e outros lugares “Segura no livro como se estivesse a colher flores para o seu vestido”.

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