12.7.13

Encontros com o piano do Atrium Saldanha





No Atrium Saldanha, para quem não saiba, há um piano e, mais do que apenas um piano, é um ponto de encontro. Durante boa parte do dia, esse piano está sozinho, tal como alguns velhotes que muitas vezes pairam por lá como se o centro comercial fosse remédio para a solidão.

Porém, chegada uma certa hora da tarde, o piano recebe companhia. Não é sempre a mesma, como se o seu destino não fosse encontrar a pessoa certa, mas sim tirar o máximo de cada encontro e de cada figura que com ele se encontra.

Por vezes é um tipo forte, largo, em que só os dedos comprovam à primeira vista que é de facto pianista. Ataca um repertório variado, oscilando entre temas que ecoam enérgicos pela espiral envidraçada do edifício e momentos em que parece só lá estar ele e o piano. Noutros dias é um homem cego, que porventura vê através da música que projecta. Prefere temas mais clássicos, mas fora do universo da música clássica e surpreende a irónica adaptação do “Behind Blue Eyes” (que eu, semi-puto semi-moderno fui buscar primeiro aos Limp Bizkit e só depois aos The Who).

É fácil saber quando está lá a rapariga, já senhora, do rabo de cavalo. Mais cedo ou mais tarde ouvem-se sempre os temas de Amélie Poulain e, se não me engano, a banda sonora de The Hours também é presença regular. O empenho está lá, mas fico sempre na dúvida se toca com o seu coração ou à procura dele.
Outro regular é o velhote que pontua a sua calvície com farripas de cabelo branco. Parece sempre que veio dar uma lição ou um concerto para fãs em privado, possivelmente usando o piano do centro como máquina do tempo para outros momentos de glória do passado. É talvez dos mais dotados em termos de peças clássicas, mas não me transmite alegria.

Tenho saudades de um rapaz vestido de preto, eu e o piano provavelmente, que era rapaz mais pela atitude do que pela sua idade. Ia lá muitas vezes encontrar-se com o piano e falar-lhe de Depeche Mode, Nick Cave e outras coisas que traziam um som e um ambiente diferente para quem o ouvia.

Com quem marcará o piano do Atrium os seus próximos encontros, é uma dúvida que por vezes me ocorre e me dá logo outra ideia: e para quando um double date com um saxofone ou instrumento parecido?

13 comentários:

  1. Só apanhei lá o velhote de cabelos brancos. Não tenho grandes termos de comparação, mas parece-me tocar bastante. Gabo-lhe a concentração necessária para tocar, por exemplo, o Concerto Nº1 em D menor de Bach, com a algazarra de engravatados e dondocas que por ali se pavoneiam.

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  2. Eis, https://www.youtube.com/watch?v=2GchlrpIxXU

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  3. eh pá... têm o contacto para propor isso? temos aqui um saxofonista. :)

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    1. Na realidade, não sei como funciona a parceria entre piano do espaço e pianistas. Mas suponho que alguém de lá saiba informar (esquece os seguranças e afins, refiro-me à administração)

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    2. Pois, o problema dos double dates é que são mais dispendiosos e as administrações gostam cada vez menos disso. :( De qualquer forma vou explorar essa oportunidade e usar este rasgo alucinado como possível motivação, se não houver objecções claro.

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    3. Pelo que sei, eles têm regularmente acções diferentes lá dentro, como forma de dinamizar o espaço e já ouvi muitas versões sobre a "cedência" do piano aos artistas.

      Se não fosse double date, que fosse animação nocturna, já que o piano por norma só está activo ao fim da tarde.

      O resto, enquanto consumidor, força.

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  4. não querendo tirar o romantismo que atribuiste a este piano e aos pianistas que por ele passam, quero só dizer que acho absolutamente ridículo ter um piano aos altos berros no meio dum centro comercial. é piroso, pretensioso (ou não fosse o "atrium" saldanha) e sobretudo é uma estupidez porque não acredito que alguém no seu perfeito juízo aprecie estar a comer num daqueles cafezinhos enquanto ouve a Tocata en Fuge do Bach (música da qual os pesadelos são feitos).

    Desculpa lá, gostei muito do texto, mas acho que estás a pôr romantismo e beleza numa coisa que de bela e romãntica não tem nada. Pior só o caralho do piano de cauda branco plantado no meio do restaurante VIP do estádio da luz em que um gajo nem consegue mastigar a comida tal é a barulheira que o bicho emite.

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    1. Romantismo à parte, e obviamente que entendo que nem toda a gente goste, se o piano tocasse ininterruptamente, com amplificadores e afins, podia afinar mais por essa linha de pensamento.

      Por dia, o piano toca cerca uma hora/hora e picos. Toca por volta da hora do lanche para a frente e utiliza apenas a acústica natural de um espaço amplo. Das várias empresas que existem no edifício, pelo que sei (e sei pouco), não há queixas via esse pormenor e esses serão os mais expostos aos efeitos (positivos e nocivos) do piano.

      Discordamos na parte do pretensioso (para mim nesse aspecto tens uma cadeia que se apelida de Dolce Vita, com referências directas ao filme e tu, que és entusiasta de cinema, deves apreciar a ironia que é ter o Dolce Vita Tejo no Google Maps junto ao Casal da Perdigueira) e do piroso (nada como cadeiras de massagem para meter umas moedas para aumentar esse índice).

      Vejo apenas como uma forma diferente, sem ser via música de elevador, de pontualmente criar uma forma de animação num espaço aberto, que por norma não implica muito tempo de permanência.

      No caso do restaurante que referes, acho bem pior, é um espaço restrito em que se fazem refeições VIP (pelo nome) ou com VIPS. O ambiente deve ser discreto e não em sobreposição ao que os clientes lá vão fazer. Se fosse um bar lounge, aí sim, podia ser mais admissível.

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    2. Ahah Concordo absolutamente com o Dolce Vita da Perdigueira. Terrível. Cadeiras de Massagem num centro comercial faz-me lembrar os humanos gordos do Wall-E. E não sabia que o piano tinha um horário específico, não sou frequentador assíduo do saldanha. Mas a última vez que lá tive estava a tocar música agressivissíma que me incomodou DE caralho. Acho que qualquer coisa mais agressiva que Chopin não é apropriada ao ambiente dum centro comercial. Para além de que acho humilhante para o senhor que está ali a tocar no meio dum centro comercial, como se tocar piano fosse uma coisa menor e que não exigisse ser tratado como um espectaculo ao qual as pessoas assistem. Pronto, basicamente é isso. Achei aquilo deprimente e incomodativo.

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    3. Aceita-se a discordância, mas em termos do espaço e da relevância dada aos artistas (e neste caso, não sei se são pagos, se é troca do género dou-te acesso ao piano e tu tocas, etc), o problema é sempre de percepção e o melhor exemplo é este:

      http://www.huffingtonpost.com/2009/01/15/the-things-we-miss-a-viol_n_158188.html

      :)

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    4. Fodasse com um artigo destes fico sem argumentos. Até me vieram as lágrimas aos olhos. Vá, ganhaste!

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