21.6.13

Trabalhar em open space - a maldição

-->

Depois da era mofosa do gabinete, do “guiché” (e esta palavra causa-me o mesmo efeito que esfregar a ponta de um garfo num prato de loiça) e de estruturas afins, certo dia convencionou-se que o open space é que era, em termos de arquitectura e dinâmica espacial no local de trabalho.

 Este anúncio é apenas um extra idiota que achei fazer pleno sentido para mostrar como tudo pode descambar num open space



Em teoria, a proposta era boa, com menos divisões de estrato (embora por norma as verdadeiras chefias continuem a arranjar maneira de criar o seu “privado”), maior interligação entre sectores e proximidade entre colegas algo que, mais uma vez em teoria, sustenta uma troca de ideias de qualidade superior e um dinamismo que não acontece quando se aumentam as barreiras físicas. E sim, os critérios económicos também faziam sentido, em termos de criar uma estrutura mais simples e poupar uns cobres disfarçando a coisa com pós-modernidade.



A verdade é que, para aí nos últimos oito anos, trabalhei em vários formatos de open space, até porque isso é quase uma espécie de condição obrigatória para aquilo que faço. Contudo, por cada efeito positivo que isso traz, existem vários aspectos que fazem do open space uma maldição para quem nele trabalha. Eis alguns:



O efeito “o prof não veio, bora fazer merda”
GANDA LOL, não me divertia assim, desde que fomos almoçar ao Chimarrão e toda a gente fez piadas com a cena da salsicha e da banana.

Quando o open space é partilhado com responsáveis directos, a ausência dos mesmos gera numas quantas pessoas o efeito “Hey, o prof saiu da sala, bute ficar bueda malaicos”. Consoante o grau de liberdade do ambiente da empresa, varia o nível e a capacidade dos “malaicos” mas, tendo  em conta o uso desta palavra, já se vê como a coisa se pode tornar deprimente quando o uso de mace ou taser não é autorizado.


Tentações à vista
Aquela cena do Google de óculos, dá para ver gajas sem roupa, tipo raio-x?


Tal como no Big Brother, quando trabalhas há bastante tempo em open space, por vezes notas que há quem se esqueça que existem mais pessoas à sua volta. E descobrir os seus interesses e favoritos da net, nem sempre é uma mais valia.



O complexo de David Attenborough
Bem, deixa lá ver como é que aquela cobra se vai dar com aquela malta...

Por mais interessante que o teu trabalho seja, é difícil não te deixares conquistar pelos vários rituais sociais que pululam à tua vista. As pessoas são animais de hábitos, tiques, maneirismos, comportamentos e actividades sui generis quando se estão a comportar naturalmente. E de repente não consegues desligar do National Geographic interactivo em que te puseram.



Sherlockholmização do ambiente
Não sei se é da perspectiva, mas o Zé Alberto parece-me cada vez mais uma gaja.

Em consequência do ponto anterior, o pequeno Sherlock Holmes que vive dentro de cada um de nós é estimulado pelo open space e isso não é benéfico nem para a concentração, nem para a paz de espírito. Porque é que aquele gajo agora vai tratar de tudo com aquela gaja? Desde quando é que o X pede conselhos ao Y? Quem me terá deixado esta orelha ensanguentada em cima do teclado?



Comensais vs. Parasitas
Norberto, vais precisar dessa ideia? Quer-se dizer, ela não é grande coisa, mas eu precisava de qualquer coisinha para encher ali numa cena que estou a acabar...

Na dinâmica orgânica do open space, em termos biológicos, temos que nos habituar aos comensais e aos parasitas, desenvolvendo defesas e tolerâncias. Os comensais são mais toleráveis, porque não nos prejudicam ao tirar proveito da nossa convivência, já os parasitas...o nome já é sobejamente conhecido. E o facto é que em open space, estamos muito mais expostos à bicharada.



Da troca de ideias à loja do chinês das teorias
Caros colegas, gostaria agora de vos falar sobre a verruga que o tipo do talho na minha zona tem na mão e na forma como isso influencia o sabor da carne que lá compro.

A troca de ideias é um ponto muito positivo, a transformação deste princípio na loja do chinês das teorias é um flagelo. Há sempre gente que faz deste ponto o seu pequeno palanque, a sua oportunidade para dizer o que pensa sobre o que interessa, sobre o que não interessa e sobre o que nunca devia ter interessado a alguém. A selectividade do meu cérebro é, por vezes, obrigada a trabalhar à velocidade de uma máquina de cortar fiambre.





O que vale é que neste open space eles pensam que eu tenho um blog de sexy ikebana.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.