19.6.13

Pusemos o Papão no desemprego

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Passei junto a um centro de emprego e reparei numa cama que estava na fila. Curioso, aproximei-me e perguntei-lhe: “Desculpe Sra. Cama, mas o que é que se passou consigo para estar no desemprego?” e logo ouvi uma resposta, não da cama, mas sim de uma voz debaixo da mesma “Ó meu estúpido, mas faz algum sentido uma cama estar no desemprego, especialmente quando há cada vez mais gente deprimida com tempo para passar o dia nela? Sou eu que estou no desemprego, o Papão”. E assim começou uma longa conversa.





Dizia-me o Papão que antigamente a vida era boa, até tinha diversos franchisados e acordos com associações de pais pelo país inteiro. Ele alojava-se debaixo de camas, em sótãos, dentro de armários ou, no caso de famílias mais abastadas, no anexo junto à piscina. Quando os putos se portavam mal ou havia necessidade de reprimenda, lá estava ele como destinatário e, aproveitando-se da imaginação da pequenada, com poucos recursos, fazia o seu trabalho e fazia-o bem.



Depois vieram os psicólogos.



O papão começou por me assegurar que nada tinha contra essa classe profissional, que ele próprio tinha um na cave, para quando os seus filhos se portavam mal. O problema, dizia ele, foi quando muitos pais de alguma forma se esqueceram que eles próprios já foram crianças e, para além disso, deixaram de ter tempo para lidar e compreender as inseguranças dos seus filhos. A existência de um profissional que podia fazer esse trabalho por eles foi a desculpa perfeita que, por sua vez, veio lixar o mercado de trabalho do papão.



Tentei fazer ver ao papão que a sociedade dos dias de hoje está centrada no mediatismo e no imediatismo, que o excesso de informação e inúmeros conflitos sujeitam as crianças a muito mais pressão do que em outros tempos. O papão respondeu-me de modo adulto, bocejando e simulando música de elevador.




Segundo ele, não está em causa que certas crianças precisem de apoio psicológico, mas sim o facto de pais e instituições utilizarem o psicólogo da mesma forma que certas pessoas recorrem a medicamentos - por tudo e por nada. Perguntou-me quantas vezes tinha eu ido ao psicólogo até à idade adulta e, pensando bem, disse-lhe que do género só me lembrava de ter ido ao orientador escolar duas ou três vezes, para falarmos do meu futuro académico e profissional. Juro que ouvi em voz baixa e irónica “E vê lá que bem que isso resultou...”



A fila avançava e ao papão via-se que custava ir arrastando a cama com armações de ferro mas, antes de entrar, disse-me meio desiludido: “Tu e todas as outras crianças sabiam que eu não existia e isso dava-me a margem de manobra para actuar dentro do universo de imaginação das crianças. Para ti podia ser algo debaixo da cama, para outros uma aranha no tecto ou o que quer que fosse. Dentro dos limites da normalidade, eles lidariam com a situação à sua maneira e, com ajuda dos pais, seguiam em frente. Mas o psicólogo existe, é real e uma criança apercebe-se disso cedo, porque se é certo que têm os seus medos, os putos também têm as suas forças e uma delas é serem (consciente ou inconscientemente) excelentes manipuladores. Além disso, os psicólogos infantis muitas vezes são mais para os pais do que para os filhos, uma figura real em que podem depositar os medos de não saberem lidar com as inseguranças (suas e dos filhos) e esperar que resulte, que alguém aponte a resposta ou o caminho. E de repente, dou por mim no desemprego e o irónico é que o psicólogo é que é o meu papão”.



Acenei-lhe e prometi ligar-lhe, depois de trocarmos contactos, se soubesse de alguma vaga compatível. No entanto, tive pouca esperança nisso, já se sabe que nos dias que correm, mais do que papão, boas oportunidades de emprego são coisas que não existem.

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