28.6.13

Os tempos de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho já eram?


Cresci a ouvir que, numa perspectiva generalista, cumprindo estes princípios trazíamos uma sensação de dever cumprido à nossa vida. A questão que se põe é: com tanta coisa e tantos valores em mudança, isto ainda faz sentido assim ou é tempo de alterar alguma coisa?

Fazendo de advogado do Diabo (como se não fossem todos):

Plantar uma árvore – Consciência ambiental é uma cena trendy. O problema é que é algo que também é muito fácil de fingir e se eu recebesse 1 Euro por cada empresa que já lançou acções do género “Vamos plantar árvores”, já tinha dinheiro para lançar uma empresa cuja única função era plantar árvores para outras empresas. O problema, tanto a nível empresarial como pessoal é que rapidamente isto se pode tornar uma cena inconsequente, se as nossas políticas/métodos em relação ao ambiente não forem coerentes com esta atitude.
Nas empresas mais avançadas a este nível, o green thinking já é substituído por algo estilo blue thinking, que implica o repensar de procedimentos a um nível geral, em vez de acções de charme ambiental. E se eu me sentir mais realizado por separar todos os resíduos em casa, em vez de plantar uma árvore, pode ser menos lírico, mas tornar-se mais útil.

Escrever um livro – É uma cena intelectual. Antigamente, os meios de produção eram escassos, tal como ter um curso universitário era raro na população portuguesa de há 50 anos. Hoje, de uma forma ou de outra, da mesma maneira que uma crescente maioria da população já tem formação superior, todos nós somos produtores de conteúdos. E entre edições de autor, blogs, receitas, experiência de vida, experiências espirituais e, ocasionalmente, boas histórias, qualquer um pode publicar um livro. Creio que a ideia de escrever um livro, como era formulada nos três princípios, não tinha a ver com sucesso comercial, mas sim deixar registada uma história que se queira contar e com a qual quiséssemos tocar os outros.

E, embora exista uma barreira invisível entre o mundo intelectual dos “escritores a sério” e esta realidade que menciono de qualquer um poder publicar um livro, nesta realidade a duas velocidades o ponto que eu deixo é: será que o livro ainda é o formato certo para exprimir esta realização ou “ter uma boa história para contar” serviria melhor a nossa realização?

Ter um filho – Aqui é complicado, porque ter um filho mexe com sentimentos profundos. Só que, por vezes, a ideia de ter um filho “cega” os pais em termos da realidade do que é ter um filho, que obviamente vai muito para além do acto físico. Cada vez mais os colégios e afins, os psicólogos e um conjunto de factores que trazemos para a equação “substituem” os pais na tarefa da educação e ajuda na superação de obstáculos que os filhos naturalmente enfrentam ao crescerem. E, na realidade de hoje, os pais lutam também cada vez mais com o factor tempo, devido à exigente multidimensionalidade da vida actual, que nos obriga a ser exímios na arte de conjugar tudo aquilo para que gostávamos de ter tempo com tudo aquilo que temos obrigatoriamente de ter tempo.

E eu, que não o tenho, acredito que “ter um filho” hoje, não é a mesma coisa que ter um filho há 30/40 anos. Não tendo certezas acho que, a reformular este princípio, não tirando o filho da equação (mas não sentindo que é um obrigatoriedade para uma vida que nos preenche e achando que é muito perigoso o lado inverso, ter um filho para ajudar a preencher vazios), passará talvez por “ter sempre tempo para o teu filho” ou, misturar princípios como “fazer da tua ligação com o teu filho algo tão forte como uma árvore e uma boa história para contar num livro”.


Gostava de saber se há quem mantenha estes princípios como algo idílico e inalterável ou se ajustavam alguma coisa no vosso tridente de realização.

4 comentários:

  1. Concordo um pouco com o que disseste. Vejo, e sempre vi, esse "tridente de realização" como deixar algo que nos faça ser recordados para além da nossa vida, mais que preencher a propria vida ou dar-lhe sentido... Afinal, de que me vale ter plantado uma floresta, tido varios filhos, escrito romances, se fui infeliz em vida?
    No fundo é um pouco como um arquitecto e a sua obra.... Nos somos o arquitecto e a obra é a nossa vida. Com sorte, e não só, ela continua para além da nossa morte.
    Bom fim de semana!

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  2. Essa tríade fazia sentido nos tempos em que as pessoas se podiam dar luxo de ter medo de ser esquecidos depois de mortos. Agora o grande problema é fazerem-se lembrar mesmo quando ainda estão vivas.

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  3. Diz a sabedoria popular que um homem só tem uma vida completa quando planta uma árvore, escreve um livro e tem um filho. Repara bem, UM HOMEM... e depois este tipo de conceitos já foram ultrapassados há mais de 100 anos, quanto mais agora que o mundo passou a estar à distância dum clique.
    De qualquer modo esta ideia de continuidade tem um excelente fundamento : repor o futuro.

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  4. É óbvio que eu sei que a frase original não se prendia possivelmente com o sentido literal que eu lhe dei, mas os conceitos do futuro começam a ser feito hoje e, vai daí, o que será mais lógico pensar é - O que deveriam ser os sinónimos (ou as actualizações) mais nobres que esta frase poderia ter para as gerações futuras ou, se ainda formos a tempo (e vamos sempre), para nós.

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