25.6.13

Os meus três encontros com a polícia



Quando se querem contar histórias e impressionar pessoas, mesmo que sejamos do mais honesto e cumpridor de leis que existe, há sempre a tendência para puxar por uma mistura entre o nosso lado mais rebelde e aquilo a que se chama efabulação.

O meu problema é que, apesar de todo um background mitra, os meus encontros directos com forças da autoridade são mínimos, mais precisamente três.



Round One – O Mak de 14 anos acreditava que andar ocasionalmente na “penda” dos eléctricos acentuava a sua irreverência. Depois de quase ter aterrado com os queixos no asfalto em Algés mais tarde, no regresso, salta sabiamente antes do eléctrico cruzar a esquadra de Belém. Ele e o seu amiguinho não reparam é que está um polícia do lado oposto à esquadra. “Então, não sabem comprar bilhete é?”. Mak, sempre disposto a galhofar responde “Sabemos, mas já não íamos a tempo de entrar e aquilo não tem máquina do lado de fora” e o polícia diz-lhe para estar caladinho se não quer que ele lhe arranque o brinquinho à chapada. Mak percebe que o humor não está em alta por aquelas bandas. O bófia volta à carga “E os palhacinho são de onde?” e, perante a resposta “Da Ajuda”, torce o nariz e diz “Ainda por cima...Vamos lá então ficar com os números de telefone dos vossos pais”. Na dúvida sobre se aquilo é só número para assustar ou realidade, Mak revela os seus primeiros instintos corredores e, tal como o seu amigo, aproveita os segundos em que o polícia vai sacar do bloco, para zarpar a correr Calçada da Ajuda acima. Reza a lenda que só parei perto do Palácio da Ajuda, muito acima do que era necessário.

Round Two – Mak vai a concerto de música da pesada. Destacamento policial foi mal pensado porque, apesar de querer revistar toda a gente à entrada, estão demasiadas mulheres polícia presentes, para a proporção para aí de 80% homens – 20% mulheres que vão ao concerto. Depois de verem as filas a aumentarem, finalmente resolvem acabar com a política mulher só revista mulher e passam a ter mulheres a revistar marmanjos. Mak está prestes a ser revistado por um homem, quando sente uma mão no ombro e uma simpática agente, com uma largura de ombros comparável à sua, o convoca para ser ela a revistá-lo. Tudo a correr normalmente quando, do nada, Mak sente duas “simpáticas” pancadinhas estilo Moliére nas suas partes íntimas. “Não levas nada anormal aí pois não?”, diz com ligeiro sorriso, enquanto Mak pensa nas implicações de responder “Anormal, os tomates”. Sabiamente e felizmente não dorido, Mak segue para o concerto e espera não haver encore à saída.

Round Three – Mak vai ao Sudoeste 2012 mas acha-se com mais classe do que a maralha que lá fica a acampar. Fica num spot maravilha a vinte minutos de carro. Mak sabe que a GNR gosta de encher os cofres à conta de festivaleiros mais entusiastas do álcool do que da música. Mas Mak é já veterano nestas andanças e garante que há sempre um condutor 100% cool na viatura e, como 100% cool é praticamente uma descrição da sua pessoa, é Mak que vai ao volante quando, pela primeira vez na sua vida, é parado numa operação stop. Guarda bojudo manda-me sair do carro. Pergunta se bebi alguma coisa, ao que eu respondo “De jeito, não” e mostra que é totalmente alheio a boa música, não me perguntando pelo desempenho dos The Roots. “Vamos lá soprar aqui no balãozinho” é o convite que me faz, juntando um seco “Sabe como se faz?”. Mais uma vez, não resisto e acrescento “Já vi uma vez na Internet, acho que me safo...”, antes de fazer o que me pede. Enquanto se aguarda o resultado, pergunto “Então, o que é que deu?” e ele, com o entusiasmo de um comatoso vira o marcador e confirma “Zero”, ao que eu respondo jovialmente “É sempre o mesmo, já no Euromilhões fico sempre a zeros”. GNR sorri, mas para dentro e manda Mak seguir viagem, enquanto se dirige afoito para carro com quatro gajas a cantar Ting Tings. Pode ser que lhes ache mais piada.


PS – No entanto, em ficção, já estive preso na cela de uma esquadra, com outros perigosos detidos. A série era portuguesa e aquilo correu tão bem que o realizador nos pediu para sermos menos autênticos. Mas isso, fica para outras efabulações.

6 comentários:

  1. Mak, de possível delinquente adolescente a cidadão "consciente".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um consciente muito in acrescente-se...

      Eliminar
  2. O Mak de 14 anos era uma espécie de Fernanda Ribeiro, provavelmente com menos buço, para aguentar essa corrida toda até lá acima.

    E todos nós já passámos por revistas awkward em concertos da pesada, sei como te sentes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca serei tão homem como a Fernanda...

      Eliminar
  3. Eu nasci na Calçada da Ajuda... Está bem que me mudaram para Belém com 1 mês, mas, caro compatriota, a proeza do round 1, mesmo com 14 anos é obra ! :D estamos a falar de há quanto tempo atrás ? ( + ou -) para os eléctricos terem apoio para a penda , isto não se passou muito antes do virar do século...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Início dos anos 90, as portas já eram automáticas nos eléctricos antigos, mas nas frestas dava para pôr as mãos e um gajo agarrava-se bem, sempre do lado oposto à entrada e saída dos passageiros.

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.