24.6.13

O sofrimento mágico



Até agora tive sorte e nunca passei por uma situação trágica/com este nível de sofrimento com pessoas que me fossem próximas, pelo menos directamente. E, embora já tenha acompanhado situações em que sofremos por inerência, pois é natural “adoptarmos” por vezes como nossa a dor daqueles de quem gostamos, nunca tento racionalizar o sofrimento alheio.



Vem isto também a propósito de três coisas: a morte de James Gandolfini e um documentário que tive oportunidade de ver esta semana sobre a rivalidade/estranha amizade dos ícones da NBA, Larry Bird e Magic Johnson (se cresceste a ver basket, é uma hora e meia que vale ouro. Da terceira coisa falarei mais à frente.



Como já referi aqui, o desaparecimento do actor que deu vida ao Tony Soprano tocou-me, mesmo não o sentindo como uma perda pessoal. Foi algo que lamento, que tenho pena e me deixou triste mas que, prestada a devida homenagem, tento balancear como parte da vida. Porém, percebo perfeitamente que haja quem tenha ficado mais tocado pela notícia e acho desnecessário quando as pessoas criticam de forma dura quem sofre pelos seus ídolos ou por aqueles que, mesmo nunca os tenham visto, encarando perdas do género como próximas. Seja o Papa, a Princesa Diana, o Féher ou o Freddie Mercury, as ligações que se criam com aqueles que reverenciamos (de forma saudável), vão muito para além do que é factual.



E isso leva-me ao documentário do Magic Johnson porque estávamos no início dos anos 90, eu tinha acabado de começar a jogar basket “a sério” e não tinha ídolo maior na matéria. E quando um puto que não sabe bem o que é o HIV, tirando que é uma espécie de sentença de morte, vê alguém que está habituado a ver a sorrir e a deslumbrar em campo com uma cara séria e triste, anunciando que se vai retirar de imediato porque é portador do vírus, esse puto apercebe-se que os heróis da vida real também caem. E é capaz de chorar porque é a primeira vez que tem a noção disso.



No documentário é interessante ver a parte em que se falam das reacções a essa notícia, porque mostra o desconhecimento que existia em relação ao vírus. A doença saltava então a barreira do nicho da droga, da homossexualidade e entrava pela casa das pessoas, através de um dos seus ídolos mainstream. As pessoas não sabiam como reagir, mas lembro-me de pensar que era uma questão de tempo até ouvir a notícia da morte do Magic.



Foi por isso que, quando ele foi votado para, em “edição especial”, fazer parte do All-Star Game em 1992 e mais tarde, enquanto parte do Dream Team nos JO de Barcelona, me emocionava imenso ver uma pessoa que eu idolatrava, pensando sempre que ia ser a última vez que o ia ver no seu melhor. Mais de 20 anos depois, a percepção que temos da doença é diferente e a verdade é que Magic Johnson que, dentro do seu azar, teve a sorte de ser um privilegiado à época, continua vivo. E eu cresci a respeitar imenso quem tinha de lidar de perto com situações semelhantes longe dos privilégios e de finais tão felizes. E a perceber também que é possível sofrer por gente que não conhecemos de lado nenhum.



E assim chegamos à terceira coisa, porque é possível que, a ser verdade e a confirmar-se como um processo viável em evolução, este vídeo mostrou-me que é no meio do sofrimento que por vezes se podem encontrar as soluções mais brilhantes.


1 comentário:

  1. Tendo por base histórias trágicas e NBA:
    http://www.youtube.com/watch?v=zanji1I7Yd4

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.