23.6.13

O humor visto por quem percebe dele



Não, não estou a falar de mim, mas sim do Seinfeld, do Louis CK, do Gervais e do Chris Rock. Até porque eu tenho a teoria de que o que é engraçado não se explica e que, embora não haja melhor do que beneficiar da companhia de quem tem o dom do humor, não há pior do que tentar replicá-lo. Só que isto não é uma lição, é conversa e da boa.

O que é importante é nos esquecermos que cada virtuoso do humor tem a sua fórmula e a combinação só resulta em pleno no próprio. Aliás, nós desenvolvemos uma “afinidade química” com essa fórmula e mesmo que a reconheçamos parcialmente noutros sucedâneos, se tivermos o sentido do humor apurado, só a apreciamos em pleno quando estamos perante o original.

Durante perto de uma hora estes senhores debatem o humor de forma natural, sem fazer concurso de piadas ou tentar ver quem é o mais engraçado. É tipo Masterchef, mas sem coisas abichanadas como caçarolas ou papillotes.

Pode não ser novo mas, tal como achar uma nota de 10€ na rua todos os meses, sabe sempre bem. E o Gervais a rir com aquele risinho frenético dele é uma delícia.


6 comentários:

  1. O mais surpreendente nisto tudo é que a piada do LCK do carro/férias/filhos tem mais graça contada pelo Seinfeld. Eu sei que é subjectivo, tal como é subjectivo o Louis CK ser melhor que o Seinfeld, mas na minha cabeça é tudo verdade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Acho que isso que referes tem a ver com o facto do Seinfeld a contar como uma piada e a punchline resultar na perfeição, ao passo que o Louis a contaria como um fact of life, com piada à mesma, mas sem aquele auge de uma piada bem contada.

      O resto são nuances que valorizamos. Eu por exemplo, se for um excerto sobre uma doença grave ou outro tipo de tópico controverso, prefiro o Gervais ao LCK, porque o estilo de gozo irónico do Gervais tem mais que ver comigo do que a perspectiva ácida-urbano-depressiva do Louis.

      É como sair à rua de panamá ou de trucker cap, servem ambos para tapar o sol, mas causam um efeito diferente...

      Eliminar
    2. O Louis conta-a como piada (já não me lembro do album, mas é na altura em que ele ainda é casado) mas é numa daquelas diatribes dele, faz parte de um daqueles clássicos riff sobre as filhas... o Seinfeld tem uma visualidade que a favorece muito mais a piada. Que é óptima.

      Neste momento, e é altamente variável, olho para o Gervais do Office e do Extras como um génio; os stand-ups dele são OK (ajuda gostar dele), e o Karl Pilkington é uma dádiva à humanidade. O resto tem sido fraco.

      O LCK como comediante, para mim, está noutro patamar. Só o descobri há uns pouco anos, mas além de achar a série incrível; é nos stand-up que acho que ele brilha, o ritmo, a técnica, é tudo tão bem feito. Embora perceba a "acidez depressiva", não o consigo descrever tanto assim, porque tem aquele toque maníaco muito ancorado no quotidiano, e há ali optimismo (ao contrário de Bill Hicks e outros sucedâneos).

      Eliminar
    3. Para mim, uma das melhores histórias do Louis é a dos pais o terem posto num Summer Camp para anormais. É um luxo.

      Quando eu digo que ele é urbano-depressivo é porque ele canaliza lindamente as nossas irritações, as manias e o lado mais reprovável do nosso cérebro, mas que está lá e existe, fazendo-o de maneira estupenda.

      O stand up do Gervais, em termos de partes de nível, se descontarmos as partes manientas de ego que saturam em pouco tempo, a meu ver são aquelas em que ele pega em temas desagradáveis/constrangedores (a base do humor desconfortável do Office) e lhes dá uma abordagem que só o facto de ser o Gervais é que o torna aceitável. Porque o storytelling dele não é a loucura, por exemplo na sua fase mais regrada o Eddie Izzard é fenomenal em storytelling. Só que em improviso o gajo rapidamente alucina e, apesar de ter algumas coisas com graça, vê-se que tecnicamente é mais fraco.

      Um aparte black - Eddie Murphy no Delirious, muitos anos antes, dava uma tareia ao Chris Rock. E, entre contemporâneos, prefiro muita coisa do Chapelle ao Rock que, ainda assim, tem bits muito bons (a voz é que sempre me irritou um pouco).

      Eliminar
  2. Pa, vou ter de reactivar isto, porque fiquei a pensar nesse aparte, e gosto da discussão. Fui rever partes do Delirious e do Raw, e por mais que goste do Eddie Murphy acho que ele não está bem ao nível nem do Chris Rock, nem do mestre Richard Pryor (o daddy-o) - em termos de stand-up. Os melhores bits são quase todos imitações, e são hilariantes, mas beneficiam muito do facto dele ser um óptimo actor. Claro que se formos comparar em termos de idade, o Eddie Murphy de stand-up dá a tal tareia, e a verdade é que pouco depois ele já era big hollywood star. Mas em termos gerais, acho que o craft do Chris Rock é melhor, por ter sido apurado, é melhor, e mais inteligente, e eu, que sou um gajo pretensioso, gosto dessas merdas.

    Do Chapelle só conheço um álbum (e os sketches), achei-o bastante bom, mas não o consigo ainda comparar. Mais recente gosto bastante de Hannibal Buress (que embora sendo negro, é pouco black na comédia que faz). Porra, acho que exagerei no name-dropping.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não te preocupes, este cantinho já é provavelmente apenas nosso :D

      O Pryor está para o stand-up, como o Afrika Bambaatta está para o hip hop (sugarhill gang, grandmaster flash e kurtis blow included), por isso ficará sempre à frente deles. Mas sim, o forte do Eddie são as imitações e também acredito que ele é melhor actor do que boa parte deles (decora material, mas é mais fraco na construção de situações).

      E quando eu ponho o Rock um pouco para trás, é já nas alturas, porque acho que tem bastante qualidade. Aquilo que o Louis CK lhe aponta como trademark (voltar sempre ao chavão principal, repetição da ideia central) é que são pormenores que não fazem de mim o maior fã.

      O Chapelle tem sketchs muito bons no programa (Draft de raças, Black actors stay together, o gajo do Ku Klux Klan) e é um bom storyteller.
      https://www.youtube.com/watch?v=Fc8WN3q4VKs

      (e aqui podíamos lançar todo um novo tópico sobre storytelling e one liners)

      Esse jovem que me indicas, não conheço, vou espreitar.

      (e falar sobre o panorama nacional de stand-up era mais um capítulo)

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.