6.6.13

Mitologia, vizinhos e saltos altos


Saltos altos.
Basta juntar estas duas palavras e surge um imaginário visual que dá para tudo e um par de botas (de salto).



Adicionemos o conceito “Vizinhos”, aplicado ao seguinte cenário: gente que desce as escadas a horas impróprias como se a Guerra dos Mundos tivesse começado e os extraterrestres fossem alérgicos ao som de saltos a martelar o piso.

A questão é que, na maior parte das vezes, reclamamos e ficamos indignados, com expressões tão educadas como “P#ta do c#”%%”%, e se fosses cavalgar para a c#na do teu pai hermafrodita”, mas nunca tiramos o cu da cama para confrontar a figura mitológica de saltos altos. Numa espécie de estudo onírico, eu avento três cenários possíveis para o que poderia encontrar se o fizesse:

A – The Girl next door

Abro a porta enfurecido e, qual filme de Hollywood, deparo-me com uma escultural mulher, sem cair em nível badalhoco. Está vestida de enfermeira, sem ser em uniforme de folia e, ao ver a minha indignação, pede desculpas com um sorriso e garante que só está de saltos altos porque deixou as suas Crocs no mecânico para a revisão. A minha disposição muda, insisto para que entre e beba um chá matinal e trocamos sorrisos. A sua maneira de ser faz-me esquecer os problemas da manhã. Infelizmente, faz-me esquecer também que não vivo sozinho e, minutos mais tarde, the girl from my own door dá-me com um sapato  de salto alto na cabeça.


B – The alien next door

Abro a porta enfurecido e, qual filme de Hollywood, deparo-me com um ET de forma ligeiramente humanóide, sem aspecto badalhoco. Está vestido de ET algo que, curiosamente, é algo com logótipos muito parecidos com Tommy Hilfiger e um ar ligeiramente beto cool. Ao ver a minha indignação, pede desculpas com um sorriso telepático e garante que só está de saltos altos porque deixou as Crocs brancas no Ovni e que costuma vir cá regularmente raptar a idosa do terceiro andar (que há muito eu suspeitava que tinha ligações a extraterrestres). A minha disposição muda, insisto para que entre e beba um chá matinal e não trocamos sorrisos, porque o ET é alérgico a chá e resolve apagar-me a memória da sua recusa, para que eu não fique ofendido. Infelizmente, apaga-me também os problemas da manhã e a memória do nosso encontro, pelo que horas mais tarde dou por mim a babar-me na sala em cuecas sem saber porquê e a faltar-me a box especial com a colecção de DVD’s do Alien.


C – The blogger next door

Abro a porta enfurecido e, qual filme de Hollywood, deparo-me com uma espécie de blogger com forma ligeiramente humanóide. Veste-se de blogger fashion, mas como eu não sei bem o que isso quer dizer, só espero que não ache que estou com look badalhoco. Ao ver a minha indignação, pede desculpas, junta-lhes um LOL e garante que só está de saltos altos porque isso é uma promessa para que o seu clube ganhe tudo na próxima época, caso contrário terá de voltar a andar de Crocs brancos. A minha disposição muda, porque agora estou na dúvida se será mesmo blogger fashion ou se apenas não joga com o baralho todo. Na dúvida, o meu lado de psicólogo amador vem ao de cima, insisto para que entre e beba um chá matinal, coisa que aceita, mostrando-me fotos de scones no seu Instagram. A minha disposição muda porque sei que tudo o que me acontecer aparecerá no seu blog ou no seu Facebook, pelo que não faltarão provas caso aquilo corra mal. A sua maneira de ser faz-me esquecer os problemas da manhã. Infelizmente, descubro horas mais tarde que não foi a sua maneira de ser, mas sim uma merda qualquer que me colocou no chá que me deixou KO por horas. Verifico que ainda tenho os dois rins, mas a password do Blogger foi mudada. O meu blog chama-se agora “O bom bebé, o mau guarda-roupa e o coração vilão” e o eu que já não sou eu que escreve tem uma escrita adoravelmente próxima, com as virtudes e defeitos de cada um, mas que post a post, toca naqueles pontos sensíveis que nos fazem pensar, rir ou protestar mas nunca, nunca, nos deixam indiferentes.

Tento cegar-me com um garfo e falho miseravelmente. Tenho agora um piercing na orelha que pode parecer um talher.

De repente, cavalgaduras em saltos altos já não me parecem coisas tão más.

4 comentários:

  1. pior do que esse som só mesmo o das cordas da roupa enferrujadas dos vizinhos que estendem a roupa à hora que os outros estão a dormir... durante quase 30 anos vivi com esse som, acho q fiquei traumatizada... Aquilo tirava-me mesmo do sério

    ResponderEliminar
  2. Oferecer o chá depois da repreensão diz muito... Infelizmente não sou tão boazinha e, como tal, incapaz de dizer mais do que "bom dia" ao vizinho que parece vomitar um boi todas as manhãs....

    ResponderEliminar
  3. Todos os cenários que idealizo para os meus vizinhos, davam um enredo fantástico para um filme obscuro do David Lynch !

    ResponderEliminar
  4. e estores que estão enferrujados.... moro num prédio com 29 inquilinos há 13 anos, e não conheço nem metade deles... baril... sei que o tipo que mora por cima é (ainda) mais velho do que eu, e tem tipas novas que passam noites a jogar poker de gritos....

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.