12.6.13

Hoje é dia de bairrismo



Em dia de marchas, sardinhas, copos e música de baile, para quem vive em Lisboa hoje é fácil falar de bairros. Entre Alfama, Bica, Madragoa, Mouraria e por aí em diante, os roteiros passam por aí, as conversas vão lá ter e, por esta altura nunca falha – o bairrismo sai às ruas.

O curioso é ver o que se passa no resto do ano em que, salvo excepções, muito menos são os que celebram a vida e a cultura bairrista. Na geração em que me incluo, que vai dos vinte e muitos aos trinta e tal, muitos foram os que nasceram em Lisboa e foram viver para os arredores. Se a esses juntarmos os que vivem em Lisboa (tanto em bairros mais típicos como fora deles), mas pouca ou nenhuma vida de bairro fazem, resta uma ínfima minoria.

E o que é vida de bairro?
No lado negativo é ter senhoras de robe na rua, algazarra todo o santo dia, romarias à sociedade recreativa da zona e todos os clichés que implicam cenários menos refinados.
Mas no lado positivo é ter uma proximidade com as pessoas que vivem no mesmo sítio que nós e sentir, em relação ao local em que vivemos, uma envolvência e uma participação que vai além do entra-e-sai do quotidiano. É gostar do seu bairro (seja nativo ou de adopção), fazer vida nele e achar que ele é diferente de todos aqueles fazem parte da cidade, mesmo que haja quem não perceba porquê.

Como é óbvio, há uns mais típicos do que outros e esse clima não se cria artificialmente. Eu cresci na Ajuda, que tem um clima de bairro, mas estando um pouco mais no eixo da cidade, tem características diferentes do centro histórico e começa, em certos pontos, a ficar descaracterizada (envelhecimento da população local, pouca renovação da população, quem vai para lá não sente as coisas da mesma forma e, não sendo central, tem pouca dinâmica no quotidiano). No entanto, num espectro completamente diferente, actualmente vivo na zona de Alvalade que, sendo também muito diferente do centro histórico, tem uma vida de bairro muito activa em termos de relações de vizinhança, comércio local, espaços comuns e actividades.

Isto também gera bairrismo, mas será porventura um bairrismo diferente, é um sentimento de pertença, enquanto o que hoje se celebra é um sentimento de festa típica. Que se espera que continue assim por muitos e bons anos, mesmo que a vida das pessoas as afaste cada vez mais do sentimento de bairro.

A questão é – será que daqui a vinte anos os bairros típicos continuarão a ter quem leve os santos para a rua, para além das Juntas e das comissões de festa?

E enquanto não há resposta, irei mais tarde a Alfama debater esta e outras questões de modo bastante bairrista.

2 comentários:

  1. O Bairrsmo nem vai precisar de 20 anos para desaparecer. As pessoas vivem em apartamentos e não e casas. Trabalham fora e á noite têm mais o que fazer do que por a cosculhice em dia, principalmente porque nem conhecem os vizinhos! Falo por mim que moro num prédio de 13 andares (28 inquilinos)há 13 anos e conheço 7 ou 8 pessoas...

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  2. Aquilo a que chamas bairrismo é sem duvida aquilo de que mais sinto falta desde que moro em Lisboa, e o que mais me custa a engolir, passem os anos que passem.

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