10.6.13

Dia da escrita, da tinta e talvez de Portugal



Levantei-me com a clara sensação que tinha algo para escrever e que era isso que não me deixava dormir num feriado que gritava, para quem o queria ouvir, “Fiquem na cama, lá fora não há nada assim de tão interessante para fazer”. Ri-me da voz do feriado e não lhe liguei.

Não era um sonho, porque senti os pés no soalho. Não estava tão frio como eu pensava que estaria.

Começar a escrever é-me fácil de manhãzinha, quando não há barulho lá fora. Minto, oiço os aviões de quando em vez, mas o som está já incorporado na minha cabeça, como uma espécie de compasso do ritmo a que escrevo. Se eu gostasse de falsas inspirações diria que às vezes penso nos aviões que passam e tento adivinhar de onde vêm ou para onde vão, criando histórias para os seus passageiros. Seria mentira e peço desculpa a esses passageiros, que merecem certamente uma história.

Tenho vários projectos para pegar, uns começados e outros por acabar. Pode parecer redundante, mas não é a mesma coisa, para mim uma coisa começada pode estar muito longe de ver o seu fim, enquanto que às coisas por acabar eu sei qual é o seu destino, como lá chegar e só falta o tempo necessário para as levar ao seu destino.

Não fazer nada disso. Não porque me tenha surgido uma inspiração divina para outra coisa, mas porque me lembrei que é feriado. E eu prometi ajudar a pintar uma casa hoje e isto não se trata de uma metáfora qualquer de criação. Trata-se de pegar em baldes de tinha, trinchas e pincéis, roupa velha que fique bem cheia de salpicos e pintar uma casa. Posso sempre escrever nas paredes e fazer uma história que fique a fazer parte da história daquela casa.

Poder posso, mas cheira-me que essa história vai ficar arrumada ao lado da história dos passageiros dos aviões.

Não demorei muito a escrever isto, mas já vi que o dia da escrita será mais curto do que o dia da tinta. Não faz mal, a escrita é uma amante paciente, ainda que exigente, e sabe que voltarei.

Lembrei-me há dez linhas atrás que hoje é dia de Portugal, mas resolvi deixar essa lembrança para o fim, para poder concluir com ironia, dizendo que não lhe vou dar os parabéns porque Portugal, com a idade que tem, já não liga a essas coisas. O problema é que também já não liga a muitas outras.

2 comentários:

  1. "Lembrei-me há dez linhas atrás"

    Descobre o erro?

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    1. Bem, em princípio terei sido redundante, já que se me lembrei de algo no passado, dizer que foi "atrás" era desnecessário, mas pode ser que me esteja a escapar algo para além disto.

      Acordar cedo para escrever não devia dispensar revisão :)

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