20.6.13

Como um sacana ajudou a fazer história na televisão

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Têm séries favoritas? Claro que têm e, nos dias que correm, é fácil não conseguir ter tempo para seguirmos todas as séries que gostaríamos. Afinal de contas, vivemos uma era televisiva em que as séries são uma espécie de galinha dos ovos de ouro, as novas novelas que seguimos religiosamente.



A HBO é um sinónimo de grandes séries, um gigante da produção que gera milhões, mas nem sempre foi assim. Apesar de ter boas séries, nos anos 90 a HBO não tinha nem massa crítica, nem sucesso comercial que lhe permitisse ombrear com as grandes networks americanas. E isso foi bom.



Foi bom porque em situação de desespero, é que muitas vezes nos tornamos mais flexíveis, mais determinados e, porque não, mais criativos. Depois de tentar reforçar a programação dramática, com os episódios de uma hora da série OZ (excelente série em ambiente de prisão, dá 10-0 ao Prison Break, muito crua), obteve reconhecimento da crítica mas não foi um fenómeno de massas. Foi então que David Chase, um tipo já com bastante experiência na produção de séries, avançou com a proposta – e se fizessem uma série sobre um homem, mas um homem bastante peculiar.




E assim nasceu Tony Soprano e assim, para quem não fosse já fã de filmes como True Romance, entrou James Gandolfini nas vidas de quem já não descolou da família Soprano. O que é fantástico, do ponto de vista de construção de personagem e do fenómeno psicológico é que esta é uma das primeiras, senão a primeira, série de sucesso mundial centrada num personagem negativa, um vilão e nem sequer é um vilão divertido, para amenizar.




Sim, porque Tony é cruel, Tony trata mal familiares, associados e mulheres com quem se envolve,Tony tem vícios, é violento e age de forma gananciosa e egoísta sempre que lhe dá na gana. Tony é um criminoso mas, ainda assim, é humano. E é dentro da humanidade que lhe reconhecemos, quer para o bem, quer para o mal, que a série se torna tão fascinante. De repente, temos um vizinho ali em casa que é mafioso, tem família, tem problemas reais, conflitos com os quais nos identificamos e, tudo isto, sem deixar de estar no universo sedutor do crime (des)organizado.



James Gandolfini, pelo lado físico e também pelas suas capacidades como actor, nasceu para ser vilão. O ar pesado, de brutamontes, as feições que facilmente o transformavam num sabujo, se assim o desejasse, tudo isso levou a uma carreira em que a gigantesca maioria dos papéis que lhe calharam em sorte eram de vilões. Para isso também contribuiu Tony Soprano, que certamente se agarrou a ele e se escapuliu da série, para ir reaparecendo aqui e ali, disfarçado de outra coisa qualquer. Mas o que Gandolfini também conseguiu, e bem, foi dar uma dimensão humana (os seus olhinhos de São Bernardo triste também ajudavam) a um personagem que facilmente se podia tornar odioso e repulsivo (e tornou-se, quando tal fez sentido, mas sempre em doses controladas).



Todo o cast era uma orquestra afinada escolhida a dedo, mas Gandolfini, "vestido" de Tony Soprano, era o maestro. Bem podiam fazer um episódio do Sete Palmos de Terra para enterrar Tony e juntar assim duas das séries que, para mim, são das mais bem escritas de sempre.






E um obrigado eterno para Gandolfini, um actor que encarnou um papel fenomenal que me deixou para sempre a acreditar no poder de um bom sacana.

(não és tu, Pulha, mas tu sabes do que estou a falar).

4 comentários:

  1. Tony, o único de gansgter de olhos tristes, com problemas de gajo normal (mulher, filhos, contas, o tio, a ausência de uma father figure, expectativas furadas, ambições, pequenas vitórias, riscos diversos) e talvez por isso o mais credível. A série Sopranos resulta precisamente porque há transferência entre quem vê e quem conta a história. E isso tem muito a ver com a inteligência de quem escreve e com o talento de quem representa.

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  2. O Tony era o típico mob guy, humanizado espectacularmente pelos argumentistas. Foi giro vê- lo crescer como o Don que era, envelhecer os puros cresceram e a história teve as suas voltas e reviravoltas do costume. Em qualquer outra série de mobsters ficam todos a perder por comparação com o Tony. Aplausos para ele. Fez um papelão como homossexual não assumido na Mexicana. ...

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