20.5.13

Um dia no lago dos tubarões alternativos



Foi o dos óculos de massa que falou primeiro “E então o que nos vens aqui propor?”. Engoliu em seco, sentindo as mãos suadas por causa dos nervos e ele sabia que o suor não era cool.
“Bem...é algo que vos pode interessar...” Viu então a do vestido 200% em tecido orgânico e brincos de reciclagem reciclada sorrir “Os nossos interesses são tudo menos mainstream, mas quem vem cá sabe o que é preciso para nos conquistar”.

Ele sabia bem o que era preciso para os conquistar “A minha ideia é simples, tenho aqui um telemóvel de madeira que grava as chamadas que recebe num vinil. Assim, podes ouvir o que os teus amigos têm a dizer usando um gira-discos”.

“Uau”, disse o que estava sentado na cadeira feita de bambu mastigado por pandas e pensos higiénicos, “é de facto um projecto interessante, mas o telemóvel em si, sendo de madeira não é demasiado pesado e grande?”
Os nervos já tinham passado, aquele era o tipo de perguntas que estava à espera “A ideia de small is beautiful já está um bocadinho batida...além disso, com o vosso apoio, podemos ter bonitos saquinhos feitos à mão por prisioneiras cegas do Nepal, pagas para o efeito, como bónus da compra do telemóvel”.
“Ele tem razão, as pessoas valorizam mais do que o gadget, há uma procura pela alma do objecto, aquilo que o liga a nós”, quem falava agora era um tipo de barba e camisa de lenhador, que folheava descontraidamente um livro de poesia de um poeta do Kiribati. “Já me conquistaste, a questão é - quanto é que queres pela participação no projecto?”

Estranhou a voz suave daquele que aparentemente era o mais interessado. Arriscou um comentário “Bem, esparava que o primeiro a dar um passo, não fosse alguém com um look tão convencional. Barba e look lenhador? Isso já é um bocado mainstream, como disseram que não era a vossa onda...”.
“Depende” disse o da barba, puxando cuidadosamente a mesma e desalinhando o cabelo, revelando ser afinal uma mulher “do que entendes por mainstream...”

Ele sorriu, afinal sempre tinha sonhado ir ao lago dos tubarões alternativos vender a ideia para a next big thing da comunidade ultra-hipsto-vanguardista. Chegara o momento da verdade:

“Para vos vender o conceito do smart-vinil-phone, o que venho pedir é algo único...”
Todos eles ficaram em suspenso, até o que bebia café de bagas defecadas por alces durante o degelo primaveril.
“...o que eu quero é que todos vocês façam um harlem shake ao som da macarena vestidos como o gajo do gangnam style...”Ouviram-se gritos de dor, a mulher lenhadora da barba chorava copiosamente com a emoção e dois deles estavam a ter uma espécie de ataque hipstérico, tentando inalar tofu.

Saiu da sala a rir às gargalhadas, levando consigo o protótipo do smart-vinil-phone.

1 comentário:

  1. tchi, eu quando for grande quero ser a tubaroa de vestido de algodão orgânico ;P

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