30.5.13

No domingo fugi a correr de milhares de mulheres


Ainda na senda do exercício, domingo de manhãzinha costuma estar reservado para uma long run. Dependendo do tempo, tanto o meu como o do S.Pedro, às vezes dá-me para fazer circuitos pelo meio da cidade já que o trânsito é pouco e, excluindo o facto de Lisboa ser uma cidade de altos e baixos (e isto faz sentido em tantos sentidos), sabe sempre bem fazer esta espécie de lavagem de vistas a ritmo de trote.

Esta calmaria matinal começou a mudar, conforme ia descendo a Infante Santo e chegava perto do rio. O número de senhoras com camisola cor de rosa aumentava exponencialmente a cada metro percorrido e rapidamente percebi – esquecera-me que era o dia da Corrida da Mulher.

A Corrida da Mulher é uma iniciativa solidária que, entre caminhantes e corredoras, junta milhares de mulheres por uma causa+desporto. Até eu acho tudo muito bem, mas sociologicamente nunca ninguém avalia o impacto de juntar milhares de mulheres num só sítio. Quando dei por mim, estava a lutar em sentido contrário ao da prova, que ainda não tinha começado, e com um único objectivo - pôr-me dali a milhas o mais rápido que possível, o que se estava a revelar difícil.

Entre cordões de idosas de braço dado que iam calmamente pelo meio da estrada, a ciclistas enfurecidos pelos efeitos da corrida no seu percurso matinal, tive de me desviar de todo o tipo de obstáculos. Beneficiei, é certo, de alguns piropos dignos de um tipo que vai de calçonito de lycra e camisola transpirada mas, há que dizer, que a moral dos mesmos se dissipa num instante quando vês que o velhote de pança proeminente, manga cava e boné da Lisnave que vais a passar está a ter direito aos mesmos piropos que tu.

Mais à frente, junto à zona de partida, um speaker gaiteiro que faz as folgas da artista pimba que vai cantando, está a ter o mesmo efeito de um pirómano deixado à solta em Monsanto – “Eu quero ouvir as solteiras a GRITARRRRR, só as solteirassssss!”, gritava o animal, “E agora as casadasssss. E agora as divorciaddddasssss”. Não fiquei para a parte das viúvas, mas sei bem que este tipo de incentivos pode ter causado danos a um ou outro atleta incauto que tenha sido apanhado alguns kms lá mais à frente.

Já estava a sair da zona de maior agitação quando vi algo que não me deixa ainda dormir tranquilo. Um grupo de retardatárias vai a cruzar-se comigo, duas mães/amigas à frente e três filhas um pouco afastadas e, atrás delas, uma simpática avózinha super rechonchuda (versão mais fofa que consegui exprimir), todas elas de cor de rosa. O problema foi quando reparei que essa avózinha, no seu esforço de conjugar o físico com a camisola da prova, desrespeitou toda e qualquer lei da física e do bom senso. A camisola ficou-lhe do género soutien desportivo e toda a sua massa corporal que se tentou evadir desse espartilho ia ali à volta, como uma bóia de carne que, que, que....não consigo descrever sem algum refluxo.

Acelerei de olhos fechados, sem me preocupar com nada. Comigo apenas restava apenas uma nota de satisfação - subir da Baixa até ao Saldanha, assim de repente, já não parecia tão mau.


2 comentários:

  1. o velhote de pança proeminente, manga cava e boné da Lisnave se calhar não diz é tantas piadas por minuto como tu...portanto não te preocupes com essa concorrência!;P

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  2. Eu dou-te o refluxo... a avózinha corajosa, coitada, se calhar ía cheiinha calor, que isto nessas idades já é um esforço que não consigo imaginar sentada no meu sofá enquanto encolho a minha bóia...

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