8.5.13

Jornalismo de uma certa crise ou crise de um certo jornalismo


Tenho alguns amigos jornalistas pelo que isto que vou agora escrever não só não é algo que não lhes dissesse em pessoa, como também não é tomar o todo pelas partes. No entanto, depois de tanto tempo a levar com a maré mediática da crise, há limites para a paciência e sanidade das pessoas ditas normais.

Segundo este título do Jornal de Notíciais, há “motoristas da Carris desmaiam com fome”. Quando li isto pensei que tinha acontecido um acidente, causado por essa situação e, mordido por aquele bichinho mórbido, fui ler o resto.

Ora, para quem não tiver a pachorra de ler o destaque da notícia (o conteúdo completo só por assinatura ou em versão papel), vê que a mesma é apenas uma exploração sensacionalista de um infortúnio que deve não só afectar motoristas da Carris, como muita gente nos dias que correm. Desde a descrição de um que só comeu um iogurte por dia durante quatro dias, à alegação de que há quem saque o dinheiro dos bilhetes para equilibrar as contas, passando pela estatística suspeita que 20% dos motoristas está a sofrer de subnutrição e acabando no lamento de que o salário base de 800€ já não chega para fazer frente aos efeitos da crise (sim, é um salário baixo, mas infelizmente não é dos piores que já vi), tudo combina num bolo de miserabilismo do qual os motoristas não têm efectivamente culpa nenhuma, mas que é convertido numa notícia que de valor acrescentado traz perto de zero.

Entenderia uma peça de contexto, em que os cortes nos transportes públicos, as dívidas no sector e o impacto que isso tem na vida dos seus funcionários (incluindo estes casos). Assim como está, é só mais uma pedra no charco. Percebo perfeitamente que estamos em águas complicadas e, felizmente, posso falar disso sem estar a sofrer mais do que os efeitos gerais da coisa mas, noticiários e jornais, em termos de actualidades nacionais nos últimos tempos dispenso perfeitamente. Não o faço por querer enfiar a cabeça na areia, feito avestruz, mas porque simplesmente não tenho paciência para “conduzir” numa estrada em que no outro lado são só acidentes e, para além disso, estão tipos com letreiros em néon a convidarem-me para assistir aos mesmos.

O choque só choca enquanto as pessoas são sensíveis ao mesmo. A partir daí, é apenas um zumbido lá ao fundo, no meio do cinzentismo. É como se a estratégia de pão e circo sangrento, que os romanos tanto exploraram, estivesse a ser revisitada no forma em que o pão (para alimentar a conversa de café, o lamento, a indignação exacerbada) tivesse ele mesmo o sabor a circo sangrento, juntando todos os ingredientes que contribuam para isso.

E seguindo o alinhamento de uma estrutura noticiosa habitual nos dias de hoje, guardo para o fim uma boa notícia, pelo menos uma notícia interessante. O trabalho do cromo que ganhou o prémio BESPhoto deste ano. É interessante e olhem que a opinião vem de um tipo que tem tanto a mania que é fotógrafo que até nem tem máquina fotográfica digna desse nome.

2 comentários:

  1. A proposito da carris: rídiculo é o E15 (o que vai Cais Sodré e passa em Belém) ter um custo de 2,85 eur para quem não tem "passe". Mais rídiculo é a máquina so aceitar moedas.

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  2. Só aceitar moedas é de nível, isso e máquinas do Metro (onde o passe simples Metro+Carris custa 35€) terem constantemente multibanco avariado e ninguém nas cabines.

    Se formos a ver, em termos de incongruências, também é muito engraçado ouvir em loop no Metro que "o cartão permite-lhe poupar e é amigo do ambiente", quando na realidade o cartão é tudo menos durável, tem prazo de validade e está longe de ser a melhor solução.

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