2.4.13

A febre do hipster

Certas palavras estrangeiras são como alguns temperos exóticos – se as usares com moderação, dão um certo je ne sais quois à nossa linguagem. Outras, no entanto, são como misturar malaguetas no arroz doce, o resultado é certo e sabido que vai ser uma bela trampa.

Neste momento, estamos a assistir à febre “hipster” em que metade das pessoas não sabe do que fala e a outra metade fala mais do que o que sabe. Se tem um ar esquisito e parece moderno, é hipster, ao passo que se tiver um ar antigo é vintage. Se alguém ouve uma música de uma banda alternativa que não conhece, dúvidas importantes se levantam – será indie ou será hipster? Um tipo usa a parte de cima do pijama como boné? Se não for maluco, deve ser hipster, especialmente se não lavar os dentes ou se os lavar com extracto de bosta de iaque.

Mas o ridículo passa ao patamar nonsense (toca a gastar os estrangeirismos na prateleira), quando temos meios mainstream a tentar capitalizar no hipsterismo o que, com as devidas distâncias, é como ter um talhante a gabar bifinhos de seitan. Por exemplo, este fim de semana passei no Alegro e vi que os cartazes e folhetos gritavam sem parar “Somos Hipsters! Somos Alegro”. Aposto que boa parte das famílias que lá vão se identificam imediatamente com o conceito, “Ai António, sinto-me tão hipster hoje, vou já ali comer uma sopa de nabo indonésio para lhe tomar o gosto” e quem não perceber bem o conceito, ao abrir o folheto vai perceber que tanto pode ter a ver com uma jovem com bom aspecto e roupas trendy que lá aparece, como com uns brócolos com lábios e olhos e umas beringelas nos mesmo preparos que pelos vistos celebram os domingos Alegro.

Usar termos diferentes ou estrangeirismos modernaços não dá direito a pena de morte mas, dentro de um limite de consciência, não se devia cair no ridículo de querer colar rótulos à bruta e não saber o que está lá escrito.

É que às tantas, isso faz-me lembrar da alegria inconsciente desta família.



5 comentários:

  1. mas afinal diz lá da tua sapiência uma definição de hipster

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O truque é não tentar definir mas, se tiver que o fazer, prefiro usar uma espécie de analogia visual - http://visual.ly/evolution-hipster

      O problema não são os hipsters, sejam lá eles o que forem, o ridículo é tentar tornar o "fenómeno" hipster em algo de massas, que é algo antagónico, pelo menos do ponto de vista conceptual.

      Eliminar
  2. Sempre achei que ir ao Alegro era imensamente hipster. Quando planeio passar por lá faço questão de vestir o meu melhor fato-de-treino da le coq sportif, que é très-hipster.

    De facto, não sei como é que esse slogan tardou tanto em aparecer...

    ResponderEliminar
  3. Esse clipezito, ai, ai... Até me esqueci do que vinha dizer.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.