13.3.13

Linha de apoio ao personagem


(telefone toca)
(uma voz feminina, ligeiramente metalizada mas a tentar passar um tom cordial, começa a debitar um discurso mecanizado)

“Bem vindo à linha de apoio ao personagem. Por favor, siga uma das seguintes opçôes:

Para problemas de personagens principais, prima 1
Para problemas de personagens secundárias, prima 2
Caso seja um autor à procura de personagens perdidas, prima 3
Caso seja um personagem no desemprego à procura de obra, prima 4
Caso seja um personagem inspirado em factos reais que afinal eram mentira, prima 5
Para resolver problemas de personagens com personalidade múltipla, prima duas teclas ao mesmo tempo.
Para apresentar queixa por abusos de autor, prima 7
Para saber mais sobre carreiras na vida real, prima 8
Caso seja uma personagem pornográfica, por favor desligue e ligue para a nossa linha de valor acrescentado.

Se preferir um atendimento personalizado, por favor aguarde sem premir nenhuma tecla”

(pequeno compasso de espera, a ouvir uma mistura entre as Quatro Estações de Vivaldi e o tecno que faz furor em qualquer pista de carrinhos de choque em Macedo de Cavaleiros)

“ Linha de Atendimento ao Personagem, bom dia. O meu nome é Pé de Laranja Lima, como posso ajudar?”
A voz era amistosa, demasiado amistosa, como é tradição em qualquer call center em que se defende que quanto amistoso, mais eficiente. “Bem, eu sou um personagem e preciso de ajuda, mas creio que não me enquadro nas opções anteriores. É que eu costumo aparecer nos posts de um blog de um gajo, mas ele ultimamente...”
“Peço desculpa por interromper” novamente o mel a escorrer da voz “Mas tenho o prazer de estar a falar com...”
“Ah, precisa do meu nome é?”, triste o mundo em que até as personagens são vítimas de burocracia “É apenas um procedimento formal...”, “Ok...chamo-me...deixe lá ver...chamo-me Anónimo da Silva, pode ser?”, pequena pausa “Claro que sim, Sr. Anónimo da Silva”.

“Bem, eu estou a ligar porque eu era suposto aparecer num post de um blog há dias, mas o gajo não há maneira de dar andamento às coisas, aquilo está parado. É que, pelo meio, já perdi trabalho em duas sátiras online sobre o Conclave, num post semi-erótico num daqueles blogs de gajas marotas e tinha aí uma oferta para fazer figura num sketch e, pelo andamento, arrisco-me a ficar a arder em todo o lado...”
“Compreendo Sr. Anónimo da Silva mas permita-me a questão – O seu seguro de personagem cobre danos em blogs? Isto é, dentro da sua cobertura, os itens “Preguiça de Autor”, “Bloqueio Criativo” ou “Dilemas de Escrita” também são extensíveis ao campo virtual?”
O personagem irrita-se, “Oiça lá, eu sou um personagem, como quer que saiba isso, deram-me um cartão, que tinha este número para ligar quando tivesse problemas e foi o que eu fiz. Sei lá o que cobre e o que não cobre”.
“Muito bem Sr. Anónimo da Silva mas, como deverá compreender, os direitos de um personagem estão limitados à cobertura do seu seguro ou à sanidade do seu autor...”, o personagem tenta lembrar-se se tem tendências homicidas “E isso quer dizer o quê, exactamente, em linguagem corrente que um personagem simples possa perceber?”
“Bem Sr. Anónimo da Silva, quer dizer que, basicamente, está fodido. Pelo menos enquanto o post com que se comprometeu não for publicado”. Silêncio do outro lado.
“Então e vocês servem para quê afinal?”, nova avalanche de mel auditivo “Sr. Anónimo da Silva, para além de apoio continuado a personagens que, em linguagem técnica, não valem um flato e ligam por tudo e por nada, resolvemos situações sem que elas deem por isso, enquanto ouvimos barbaridades”. O personagem, temendo ser tomado por burro, repete em voz mais baixa “E isso quer ao certo dizer o quê, que eu ainda não consegui perceber bem?”.
Suspiro metalizado “Quer dizer que se calhar devia ir visitar o tal blog Sr. Anónimo da Silva”.

E ele foi.

2 comentários:

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