4.3.13

Desapareceu de sua casa vs Mudou de casa e desapareceu



Creio que em tempos li qualquer coisa do Miguel Esteves Cardoso que abordava esta temática mas, tal como o amor, a memória às vezes também é f”$&da. No entanto, primeiro que tudo, quero dizer que tenho alguma saudade mórbida dos avisos que a PJ fazia na televisão, em que nos alertava para o cidadão A ou B que tinham desaparecido de sua casa, muitas vezes munidos apenas de um roupão e perturbações mentais.

Nos dias de hoje, para além dos alertas que surgem regularmente por email e Facebook sobre gente de quem se desconhece o paradeiro, há outro tipo de desaparecimentos que me preocupam. Falo-vos de episódios que começam normalmente com “Olha, é só para te dizer que vamos mudar de casa e vamos para Balafre das Minas do Bom Sucesso. Mas não te preocupes, aquilo é a um pulinho de Lisboa (ou outra cidade) e vamos continuar a combinar coisas na boa”.

E, a partir daí, ver esse amigo/a torna-se uma coisa tão regular como avistar o Bigfoot, pois amigos comuns juram que o viram num café no Chiado, outros que almoçaram outro dia com ele ali para os lados do Marquês, mas a verdade é que a coisa é difícil de confirmar. Quanto mais estranho o nome da terra e quanto mais próximo ele jurar que é perto de Lisboa, mais provável é confirmar-se o seu desaparecimento.

Às vezes, tentamos combater esse desaparecimento da nossa convivência através de uma visita a essa tal terra mágica que, mais do que um subúrbio convencional, é um portal para outra dimensão imobiliária. Os croquis que explicam como chegar lá estão por norma cheios de ICs, IPs, kms de Estradas e referências que começam com Quinta de qualquer coisa ou Restaurante “O não sei que mais”. Creio que já há workshops para decifrar este tipo de informações.

Depois de algumas voltas e alguns telefonemas porque a direita afinal era a esquerda e o restaurante já fechou e é uma casa funerária, chegamos lá. E durante algumas horas tudo parece estar como sempre foi e aquilo não é um evento místico, mas sim convívio à séria. Mas depois chega a hora da despedida e não consegues evitar umas lágrimas e um abraço sentido, porque amanhã a memória de como chegar a Balafre das Minas do Bom Sucesso, Lote 3, Rua AB não passará de uma vaga noção e, uma vez mais, os nossos amigos voltam à condição de mito urbano, de tão desaparecidos que andam.

3 comentários:

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