15.3.13

Crónica do periodo jurássico da culinária lusa


Dou por mim a decorar pequenos “palitos” de manga com um fio de chocolate negro derretido, fazendo uma espécie de roda de bicicleta em prato largo. Detenho-me por segundos e penso se não terei sido vítima do vírus “Ah eu sempre tive algo de chef super gourmet e agora posso brilhar” e, ao olhar para o avental que tenho posto, a resposta não se afigura fácil. Cuspo para a manga só para me passarem essas ideias parvas e continuo, uma vez que não tenho tempo.


Recuando um pouco no tempo, quando andava na faculdade ainda não havia a febre da culinária gourmet. Bem, se virmos as coisas com detalhe, no escalão etário masculino 18-22 haver culinária por norma já é bom. Eis o que um amigo meu nessa altura me descreveu como o jantar caseiro que preparou para uma jovem que tentava impressionar:

Entrada: Melão com presunto
Prato: Salsichas recheadas em cama de couve
Sobremesa: Mousse surpresa

Eis o que ela (que eu também conhecia) me confidenciou ter sido o jantar:

Entrada: Em vez de cortar o melão em cubos, juntar-lhe um pedacinho de bacon por cima e espetar-lhe um palito, a loucura imperou. O jovem cortou talhadas de melão, deu-lhes uns cortes pelo meio e cravou lá nacos de presunto. A experiência a tentar comer aquilo deve ter sido do género daqueles concursos em que se veem gajos a malhar em maçarocas de milho como se fossem debulhadoras.

Prato: Conceito real das salsichas recheadas – uma espécie de salsichas enlatadas, com um corte no meio e uma fatia de queijo daquele plastificado enrolada à volta antes de levar um toque genuíno de microondas. A cama de couve....bem, a cama de couve era basicamente uma folha de couve cozida, uma espécie de barco na qual uma salsicha com uma peruca loira navegava.

Mas, a grande surpresa estava guardada para a mousse...surpresa.
Partindo do conceito de uma mousse em pó, em que basta seguir as indicações no pacote, o jovem achou que seria interessante dar-lhe uma certa finesse, finesse essa que se revelou na forma de uma caneca de brandy, transformando a mousse surpresa no delírio de qualquer alcoólico diabético. É a chamada sobremesa-digestivo-espera lá que já nem é preciso irmos a um bar a seguir. (nota: mais tarde, o artista tentou lançar-se na arte dos shots, criando uma mixórdia que envolvia desta vez brandy e Nesquik)

Não correu bem, será escusado referir, mas continuo a dizer que a apresentação conta sem cair no excesso de um prato de comida tão refinado que a construção lá dentro tem o tamanho de um playmobil. A minha única vergonha é não conseguir passar a apresentação do prato para os posts e continuar a servir este tipo de conteúdos, que nem com um bocado de presunto ou uma fatia de queijo enrolada conseguem passar por gourmet.

3 comentários:

  1. Eu, nos tempos de faculdade também tentei ir pelo campo gourmet... Pera abacate com cogumelos. Teria corrido bem não fosse a pêra estar verde e os cogumelos mal cozinhados

    ResponderEliminar
  2. Eu, no tempos de faculdade, ia à cantina.

    ResponderEliminar
  3. Vamos lá a ver, se for um playmobil-criança sentado, deixa-se passar...

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.