4.2.13

Os coitadinhos que vêem televisão sem querer



Tive oportunidade de há poucos dias ouvir ao vivo e a cores um tipo com responsabilidades em canais de televisão portugueses. Entre as várias coisas que disse, e nem sempre estive de acordo com o que ouvia, uma delas pareceu-me curiosamente engraçada e acertada – Quando as pessoas falam de maus programas de televisão, há sempre uma diferença entre a nossa razão para passar os olhos pelo programa, que se justifica facilmente com: “Não estava a dar nada de jeito”, “Não tinha nada para fazer” ou “Foi só para tentar perceber como é que há gente que vê essa merda...” e a razão pela qual os outros o vêem: “São uma cambada de bimbos”, “Aquilo é o reflexo da sociedade que temos” ou “As pessoas não têm qualquer critério, comem o que lhes põem à frente”.

A verdade é que a curiosidade mórbida televisiva é igualzinha à que faz abrandar as pessoas no lado contrário de uma estrada em que houve um acidente. Só que o bichinho hipster-elitista-intelectual-liberal que vive em muitas cabeças tende a negar o prazer inconsciente que isso dá.

Embora tenha tendência para ver menos televisão (mas há que ter em conta que ver séries, seja em DVD, no computador e afins, também é ver televisão, pois foram produzidas para tal), gosto de ter conhecimento de fenómenos sociais, mesmo dos reles. Nunca vi a Casa dos Segredos, mas basta-me aceder às redes sociais ou a blogs para saber quais os principais cromos e as efemérides de renome. No entanto, isso não me seduz porque me parece que são sucedâneos cada vez mais pobres do Big Brother original (que eu vi, sem arrependimentos). Além disso, em cada transporte público, em cada café, em cada esquina espreitam micro-episódios reais desse tipo de programas.
Pouso agora os meus óculos de massa folhada de hipster para confessar em seguida que espreito regularmente o Encantador de Cães, não só porque gosto de animais, mas também porque acho que nos falta alguma psicologia animal no quotidiano. Já vi o Fashion Police, porque os bitaites avinagrados que aquela velha mumificada manda provam que há humor depois da morte e também já contemplei alguns episódios do Extreme Makeover (aquele das casas para gente que está para lá dos limites da desgraça familiar), porque aquilo é extremamente motivante para um tipo não se andar sempre a queixar do que não tem, apesar do apresentador gritar demasiado.

Nada disto foi sem querer, nem sequer meio episódio de Kardashians, só porque um gajo que era dos meus jogadores favoritos da NBA teve o “azar” de casar com uma das tipas, que não é a Kim. Acho que faz parte, especialmente nesta era em que o balanço da televisão se faz entre séries e programas que exploram diversos tipos de voyeurismo, do mais trendy ao mais vulgar.

Por essa razão, embora tenha pouca pachorra relatos de quem gosta de mergulhar horas a fio nos pastelões televisivos como forma de fazer pouco da realidade alheia ou alhear-se da sua, menos pachorra tenho para quem ache que as suas razões são válidas, perfeitamente justificáveis e que bimbos são só os outros.

5 comentários:

  1. O que é certo é que alguém vê, senão, não se fazia. No outro dia alguém comentava tranquilamente no comboio que tinha passado a passagem de ano sozinha na sala com a neta no colo a rir-se com o programa da casa dos segredos, enquanto que a filha tinha decidido ficar trancada no quarto a amuar, mas que se levantou para ir buscá-la quando a Teresa disse que estava a chegar a meia noite. E quando criticamos estes programas nunca nos podemos esquecer que eles são o balão de oxigénio para muitas vidas e só por isso já valem de alguma coisa.

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  2. as pessoas não podem ser inteligentes e espertas e com classe durante 100% do seu tempo. há necessidades de ver merda, e parvoíces, e coisas que não obriguem a pensar. e como na rádio e nas nossas playlists de mp3, a televisão precisa de "enchimento", para ocupar o espaço entre os programas bons. são coisas não tão boas (ou sinceramente más), mas que quanto mais não seja servem de pontos de comparação que nos permitindo-nos dizer que este ou aquele programa tem qualidade.

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  3. Estou à espera de uma nova edição dos ídolos.

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  4. Vamos lá a ver... o que tens contra a tipa que não é a Kim? Uma rapariga tão grande e jeitosa!
    :) Eu vejo, e não preciso de justificar que é só quando estou a passar a ferro. Agora isso dos cães, na...

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  5. Eu gosto do Extreme Makeover embora me emocione e com as Kardashians já aprendi que é possível fazer clisteres perfumados para (bem, é melhor parar por aqui)... E, nada como o TLC para nos fazer pensar no sentido da vida...

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