25.2.13

As vocações, os cursos e a (ir)realidade à nossa volta

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Gostava de escrever isto numa altura em que o desemprego não fosse uma realidade que se espalha a olhos vistos dentro do nosso círculo de amigos, que bate à porta de gente da nossa família e que, mais assustador do que ser apenas desemprego, assusta por não ter solução à vista, nem sequer a médio prazo.



Mas infelizmente o meu gosto não é para aqui chamado e esta realidade também tem que ver com anos e anos de ensino universitário mal estruturado a nível público e universidades privadas mais preocupadas em facturar do que em adaptar a sua oferta e o seu serviço às necessidades do nosso país. Já se sabe que há muito que deixámos certos sectores a decair e hoje em dia somos essencialmente um país de serviços mas, infelizmente, no que ao ensino diz respeito a expressão que me ocorre é o desabafo “bonito serviço”.



Fizemos uma transição demasiado lenta, a meu ver, a partir de um ensino universitário académico não massificado em que quem acedia às universidades ou tinha uma posição social que, independentemente do curso que tirasse, lhe garantia o acesso a um emprego na área ou tinha a capacidade (num Portugal pós 25 de Abril) de se destacar em áreas que eram relativamente novas e tinham capacidade de encaixe para o número de licenciados ainda reduzido.



O boom do acesso ao ensino universitário a partir dos anos 90, teve o mérito de democratizar um nível de ensino superior para várias camadas da população mas não teve o cuidado de se preocupar com o volume de licenciados produzidos em áreas para as quais não havia escoamento profissional possível, nem também de dar ao ensino um cunho prático que muitos dos decanos universitários continuam a abominar, porque não foi nessa perspectiva que fizeram toda a sua carreira.

As universidades privadas, que compensaram o numerus clausus das públicas oferecendo a quem não obteve as médias a oportunidade para seguir a sua vocação a troco de uma simpática mensalidade, nunca fizeram uma integração profissional devida entre a sua oferta, os seus alunos e o que se segue a seguir a teres nas mãos uma licenciatura paga a peso de ouro.



Não é preciso mencionar cursos, embora grande parte deles sejam na área das ciências sociais, para saber que essas áreas hoje em dia continuam a ser focos de licenciados no desemprego e não é por isso que continuam a ter menos candidatos no acesso aos cursos.



A minha opinião, que é coisa para valer 2 cêntimos, é que boa parte dos cursos de ciências sociais devia ter uma vertente comum e prática muito mais abrangente nos primeiros anos, com as especializações a serem muito mais flexíveis após isso, dentro dos campos de interesse, revistas de x em x anos para se adaptarem à realidade. O grosso da parte teórica, tal como o aprofundamento das vertentes mais académicas ficariam mais para a frente, para quem tiver possibilidade e capacidade de investir nas mesmas.



Quanto mais multidisciplinares forem as pessoas, maior será a sua capacidade de adaptação e eu já nem falo do que é a sua vocação e a forma como a mesma se enquadra na nossa realidade (versus emigração). Eu tenho a sorte de trabalhar na minha área de estudos (com as queixas todas a que tenho direito) mas, feitas bem as contas, o que eu aproveitei daí para o meu quotidiano profissional é mesmo a vertente genérica, já que a especialização era completamente datada e nada adequada à realidade do meio. No entanto, ao meu lado e a fazer o mesmo que eu, já tive gente formada em psicologia, física, direito ou arquitectura e com as mesmas capacidades e até melhores talentos. Se calhar, a vocação deles só surgiu mais tarde ou foi o percurso que lhes foi abrindo os olhos mas, a verdade, é que nem sempre o caminho é aquilo que imaginávamos antes de o percorrer.



Uma reforma do ensino é uma tarefa quase tão gigantesca como a reforma da expectativa das pessoas, que muitas vezes se agarram com unhas e dentes a um curso e à ideia de uma vocação, que por vezes está muito longe de ser garantia de felicidade ou satisfação instantânea.



Acredito que os sonhos se podem realizar e que quem os tem deve lutar por eles mas também acredito que um curso está cada vez mais longe de ser o sítio onde apostamos o nosso futuro com toda a força. Porque a realidade muda cada vez mais depressa, as nossas expectativas e os nossos desejos flutuam cada vez mais e o ensino permanece, na sua generalidade, estático e passivo, à espera que todos se adaptem a ele.

5 comentários:

  1. 1ºo boom universitário começou nos anos 80 e não nos anos 90

    os anos 80 viram 400 mil entrar no ensino público com um número reduzido de universidades e institutos universitários e alguns politécnicos e ISEG's a servirem bacharelatos
    com cursos de merdaleja com 200 alunos a entrarem por ano
    e poucos cursos com menos de 100 alunos



    os anos 90 viram 540 mil entrar para um número enorme de universidades e politecnicos com milhares de cursos com 20 alunos por curso e nomes assaz interessantes
    Engenharia Hidrográfica Geotécnica
    A Engenharia Têxtil a ser substiuida pela Engenharia do Papel e Engenharia Biológica
    Os cursos via ensino a serem substituidos em letras e humanidades por estudos africanos e arqueologias e museologias de curta duração

    e o escoamento existiu sempre muitos emigraram nos anos 80 para espanha e frança para cuidar de vacas e pepinos se eram zootécnicos ou agrícolas ou emigraram para lisboa e direcções regionais enchendo os ministérios

    alguns meteram-se na aventura da iniciativa individual mas infelizmente o campo tinha poucas discotecas e as vacas nã davam pró gasto

    os de história ou iam dar aulas ou entravam com os sociólogos em gabinetes vários ou iam vender automóveis

    logo saídas sempre houve duzentos engenheiros portugueses vivem há 30 anos no vale do Ruhr...

    a emigração não começou hoje

    tornou-se foi mais televisível

    o sub-emprego e o recibo verde idem

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    1. É verdade, nos anos 80 deu-se o primeiro boom e não nos anos 90, mas algumas das principais universidades privadas (com excepção da Católica) surgem a partir do final dos anos 80, assim como os "incentivos" europeus na direcção dos serviços.

      Sim, proliferaram os cursos de nicho, recônditos e pouco/nada funcionais que têm 3/4/10 alunos. Mas, face a avalanches de advogados, jornalistas, ramo da comunicação e até psicólogos, contribuem todos para a falta de adequação entre expectativas-resultados finais.

      A malta, por via da necessidade, depois adapta-se ao que for preciso e quando vender casas rendia, muito canudo era trocado por licença de vendedor e por aí em diante.

      O facto das coisas serem visíveis através dos media está ao nível da internet ter facilitado a cópia, o plágio e o diabo a quatro. As coisas já existiam e efectivamente o que mudou foi que, na maior parte dos casos, ficaram mais visíveis.
      O que não significa que não devessem ter outro rumo ou merecessem outras soluções.

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  2. Respostas
    1. Em número de posts sim. Mas a vida, mesmo do ponto de vista da escrita, não acaba no blog...

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