14.2.13

A triste história de dois pacotes de chá


Camomila era calma, serena e pouco ou nada a conseguia perturbar, nem sequer um dedo mindinho esticado junto a uma chávena. Sem que fizesse por isso, tinha o dom de acalmar os que com ela privavam e muitos eram os que a ela recorriam em horas de maior aflição sendo que, para além de todos estes predicados, há que dizê-lo tinha também um belo pacote. No entanto, longe da exuberância de outros chás, não era dada a chamar a atenção para as suas propriedades.

Por seu lado, Earl Grey era tudo o que o seu nome indicava. Pedante como só um chá com nome de nobre inglês consegue ser, tinha horas certas para ser servido e um toque de citrinos muito específico. Ele era quem atribuía o gosto refinado aos seus convivas. Tendia a olhar para os outros chás com a condescendência própria de quem se acha diferente entre iguais mas, entre toda uma personalidade complexa, tinha o condão de animar e dar vida a uma sala onde estivesse, se a isso se dispusesse.

Quis o destino, a vida e uma casa onde se bebia muito chá que se encontrassem ambos na mesma caixinha. Não foi amor à primeira infusão, até porque entre eles estavam o Rooibos e o Jasmim que, apesar de muito perfumados e delicados, não eram gays. Vestindo a sua melhor saqueta, Earl Grey começou por se mostrar altivo, intenso e embora não se apercebesse, narcisista. Ora isso não só não impressionou Camomila, que manteve o seu pacote discreto, como rapidamente levou Earl Grey a pensar que talvez precisasse de meter água. Foi assim, mais suave, que o que havia de melhor em Earl Grey começou a cativar o que em Camomila puxava por mais animação.

Tudo parecia correr bem e, apesar de não o serem, num dia dos namorados Earl Grey disse que a gostaria de levar a passear , pediu que lhes preparassem duas das melhores chávenas e que era bom que desta vez não viessem com uma migalha que fosse. “Bonito serviço” pensou Camomila, enquanto delicadamente testava à água para ver se estava quente o suficiente. Lado a lado, cada um na sua chávena, foram a sítios nunca antes vistos e ouviram conversas nunca antes ouvidas. Partilharam sorrisos junto a scones, admiraram cheiros intensos de compotas caseiras e viram pela primeira vez de perto uma manteiga sem ser de pacote.

Tudo era lindo, tudo era maravilhoso mas, de repente, a tragédia instalou-se. Relatos da TVI dizem-nos que Camomila foi raptada da sua chávena por um grupo de dedos encapuzados e sacudida violentamente junto ao lava-loiça. Earl Grey por momentos pensou que era por causa do seu estatuto nobre e que lhe iriam fazer um pedido de resgate mas, cerca de treze minutos depois um novo grupo de dedos que até podia ser o mesmo, porque continuavam encapuzados, não só veio deitar as suas teorias por terra, como o levaram pelo ar. Mais umas pauladas no lava-loiça, eis que se abre um alçapão secreto e escuro e eis que Earl Grey se vê atirado lá para dentro.

Sozinho, no escuro, Earl Grey pensou em chorar, mas um chá não chora, nem sequer na xícara. Encheu a saqueta de ar e logo se arrependeu, dado o cheiro nauseabundo que se instalou. Foi aí que resolveu chamar por Camomila, que lhe respondeu com ligeira irritação “Estou aqui, deixa-te de gritarias”. Earl Grey, pouco habituado a este tipo de ambientes, perguntou-lhe que raio de caixa era aquela e que chás horrorosamente fétidos eram aqueles que privavam com eles. Camomila suspirou e delicadamente disse-lhe “Ó meu palonço isto é um caixote do lixo e, tirando nós dois, não tem mais chás, só lixo mesmo”.

Na altura Earl Grey não percebeu muito bem o que lhe estava a acontecer.
Três anos mais tarde, a viver agora numa lixeira perto de Valado dos Arcos ainda não percebe. Vive com Camomila e as três saquetinhas que tiveram juntos Lúcia Lima, Lúcia Liu e Lúcia Piloto, que se tratam entre si por Irmã Lúcia. No entanto, acima de tudo, vive com a memória que o leva recorrentemente a contar a história do dia em que viu pela primeira vez uma manteiga que não era de pacote.

8 comentários:

  1. *Taking my hat off to you,sir* :)

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    1. It's rare to see a troll with a hat, specially in such a noble gesture :)
      Right back at you.

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  2. Vai escrever um livro se faz favor.

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    1. Já esteve mais longe, não me falte o chá...

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  3. Mak,
    Sem estar, de modo nenhum, a fazer comparacoes, sempre que o leio (aqui ou ali ao lado) lembro-me dos livros e da revista Pao-com-manteiga. Fico curiosa, mas naturalmente nao vou perguntar se tem alguma coisa a ver com eles porque imagino que nao va' responder. A genialidade, contudo, assemelha-se, so' que a sua vem regada com agua mais fresca e mais rapida (deve ser de cascata...). Mau, uma ova! Voce e' giro que se farta. Remeto-o para o seu blog de 11.10.11 para agradecer a sua palavrosa presenca. Sim, obrigada.

    maria s

    P.S. Acabei de deparar com isto e lembrei-me deste cantinho (inevitavelmente).
    http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.co.uk/2013/02/il-buono-il-bruto-il-cattivo-1966.html

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    1. Sou um bocadinho posterior à geração dessa revista, mas agradeço a comparação já que, pelo que sei, essa publicação se é a que estou a pensar ajudou ao humor que se fazia nos anos 80.

      Quanto ao filme, é da minha eleição e a associação com o nome do blog claramente intencional :)

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