22.1.13

Teoria da observação social em elevadores


Há algo místico nas viagens de elevadores. Há quem não se sinta confortável a fazê-las, há quem se sinta mal, há quem suba mesmo quando se sente em baixo, há quem saiba que a partir dali é sempre a descer e há até quem os negue à partida, preferindo as escadas.

Seja como for, quando se entra num elevador tudo é possível, incluindo o facto de não acontecer nada de especial. Ainda assim, é interessante ver como se comportam as pessoas num espaço confinado, em que muitas vezes o seu espaço pessoal tem que ser partilhado com perfeitos (e não tão perfeitos) desconhecidos.

Assim sendo, num esforço épico de sociologia de ascensor, eis alguns comportamentos observados e estruturados em categorias:

O observador de tectos - Muito comum entre quem tenta alhear-se à realidade e evitar os demais durante um curto trajecto, procurando no topo do elevador algo que só se encontra na Capela Sistina.

O empático – Duas pessoas (ou mais) num elevador tornam-se automaticamente próximas ou, pelo menos, mais próximas. Daí que, mesmo que não as conhecendo de lado nenhum o empático exprima através de aceno de cabeça, sorriso afável, piscar de olhos ou expressão compreensiva, tudo aquilo que une duas pessoas num espaço de sobe e desce.

O amigo do telemóvel – Mal as portas do elevador se fecham, abre-se o mundo do smartphone, com mensagens importantes que têm de ser enviadas nos próximos 12 segundos, consultas de agenda, aplicações que precisam de ser actualizadas e afins. Antes de existirem telemóveis, muito possivelmente estas pessoas eram obrigadas a ficar incontactáveis durante todo o tempo que dura uma viagem de elevador.

O amigo do telemóvel e da porta do elevador - Quando o medo da falta de rede ataca no elevador, estas pessoas têm conversas ao telefone com a cabeça encostada à porta do mesmo, investindo com agressividade quando alguém se mete à frente.

O conversa a três – Aproveitando o facto de duas pessoas já estarem a conversar, esta pessoa torna por osmose a partilha do espaço na harmonia da conversação, tornando-se um observador atento da mesma, podendo ou não exprimir reacção ao que vai sendo dito.

O one person show – seja humor, storytelling, música nos phones ou até micro-cantoria, esta pessoa tem como missão dar valor acrescentado a uma simples viagem de elevador. Menos de cinco sorrisos é considerado fracasso.

O avaliador – Qual o valor de uma viagem de elevador? Esta pessoa só conseguirá dizer depois de avaliar de alto a baixo qualquer outra alma que partilhe com ela essa viagem. Calmamente e sem necessidade de ser discreto, pois o tempo é escasso.

O raio-x – Podem estar uma, duas ou dez pessoas no elevador, mas aos olhos deste indivíduo não está lá ninguém e é possível olhar através de qualquer objecto ou ser que lhe sejam colocados à frente.

O multitasking – Elevador? Qual elevador? Tenho um pequeno almoço para tomar, cabelo para pentear, maquilhagem para acertar, reuniões para marcar, emails para enviar e apenas uma viagem de 4 andares para o fazer.

O "olfactista" – Na melhor das hipóteses, esta pessoa acredita que espaços confinados são a melhor altura para comprovar que despejar 2 litros de perfume em cima faz maravilhas pela nossa vida social. Na pior das hipóteses, não estamos a falar de perfume.


Não se acanhem em partilhar tipologias, o meu paper sobre estas matérias está longe de estar fechado.

4 comentários:

  1. O\A sinistro\a - olha para toda a gente como se fosse sacar de uma arma a qualquer momento.

    O/A nervoso/a - mesmo que pretenda o último piso, coloca-se à junto à porta não vá enganar-se e falhar o piso desejado.

    O\A desorientado\a - não sabe para onde vai, só sabe para onde não quer ir. E carrega em todos os botões e em cada paragem coloca a cabeça de fora para confirmar.

    O \ A puxa-saco - fazem a piada do peso máximo de carga e elogia a elegância de todos os passageiros no elevador.

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  2. Venho em epresentação da tipologia "Arqueólogo: se a viagem for grande, arranjo logo maneira de me pôr a remexer no saco à procura de qualquer coisa, geralmente as chaves, e o bom da coisa é que nem preciso de fingir que estou a ter dificuldades em desenterrá-las.

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  3. Adorei as tipologias apresentadas e as acrescentadas. Acrescento a minha: pertencendo à categoria raio-x, sub-variante anti-yoga: ignoro todas as pessoas que viajam comigo e por princípio, nunca respiro pelo nariz em espaços fechados.

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  4. - O que prega os olhos do chão e não os tira de lá!!
    - O (normalmente A) que se pavoneia frente ao espelho de todos os ângulos e parece contente com o que vê, ignorando todos os presentes.

    E já agora em qual categoria te incluirias??

    Morena

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